Bal a Versailles, Jean Desprez

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Pense em um baile de máscaras na época do Renascimento… Damas empoadas, vestidos amplos, anquinhas, leques, perfumes fortíssimos, perucas e muita sujeira. Sim, você leu corretamente, sujeira. 
Agora pense em Lorde Byron e sua casaca de pelica. Ele está em uma taverna bebendo conhaque temperado com favas de baunilha mofadas (mo-fa-das). E tal taverna fica em frente a um prostíbulo.
Imaginou os dois cenários? Então você está na atmosfera de Bal a Versailles.
 
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É um perfume “sujo”, pesado, obscuro. E ao mesmo tempo é excepcional e impressionante! Foi criado em 1962 por Jean Desprez, utilizando dos ingredientes e matérias primas mais caras e raras da época.
Bal a Versailles tem um opulento bouquet floral, notas acentuadas de couro, um quê animálico e uma aura resinosa/esfumaçada. Muitos vão odiar, achar com cheiro “de vó” ou com cheiro de “ritual vudu” (essa definição foi uma das mais engraçadas que já ouvi). Eu admiro Bal a Versailles pela estranheza, pela opulência e pela construção mesmo. Como alguém ousou misturar tantas notas dramáticas em um mesmo perfume?
Notas de saída: alecrim, flor-de-laranjeira, mandarina, cássia, rosas, neróli, jasmim, bergamota, rosa da Bulgária, limão.
Notas de coração: sândalo, patchouli, lilás, raiz de íris, vetiver, lírio-do-vale, ylang-ylang, couro.
Notas de fundo: bálsamo Tolu, âmbar, musk, benzoim, civeta, baunilha, cedro, resinas.
Com tantas notas potentes, Bal a Versailles é até confuso. Sinto as notas de couro, resinas, do bálsamo Tolu, o toque melífluo das flores, os tons amadeirados e da raízes. E ainda tem um quê de bebida, de conhaque ou brandy. A nota animálica da civeta dá o tom “sujo” do qual falei antes, o transforma em um perfume bruto, sem lapidação e delicadeza. 
Era o perfume predileto e assinatura olfativa do Michael Jackson, que mantinha um estoque de vidros em sua residência. Figura também entre os preferidos de Elizabeth Taylor, Joan Collins, Jacqueline Kennedy Onassis, Olivia de Havilland e Rainha Elizabeth (segundo informações do site da fragrância – http://www.jeandesprez.com/pastandpresent.html)
Não é para olfatos sensíveis. Não é diurno. 
É “trevoso”, unissex, opulento, místico e transita entre as fronteiras de um perfume sublime ou de um perfume insuportável. É borderline. Depende do dia, depende do clima, do ambiente. 
Se eu gosto do Bal a Versailles? Sim. Na minha pele destacam-se as notas de couro e as notas doces. Como se eu estivesse usando uma velha, gasta, mofada jaqueta de couro que ficou guardada junto com alguma bebida alcólica forte. Sem esquecer das favas de baunilha guardadas nos bolsos. 
Sei que a resenha está confusa, mas como falar de Bal a Versailles sem se confundir ou se equivocar?

 

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19 comentários sobre “Bal a Versailles, Jean Desprez

  1. Este perfume sempre foi aquele tipo que eu até entendo e admiro, mas só usaria quando/se fizesse uma viagem no tempo, tipo assim, pra entrar na vibe. Nunca consegui ocasião para usar o decant que tenho, agora já está com o cheiro da múmia do Mozart e não sei mais se é de propósito ou não. Brr!

    • Que massa sua resenha! Não conheço esse drama, mas muito me interessa. Tenho uma queda irrefreável por perfumes difíceis, que me nocauteiam. rsrsrs

      E aí eu pergunto: se fede aos narizes de agora, o que diria Jackie O. ao se deparar com os aromas de chiclete e marshmallow que muito apetecem as moçoilas de hoje?
      Nunca me esqueço de vovó dizendo que meu Midnight Fantasy era horrível, que não é assim que um perfume de verdade deveria ser. E também li na outra página o que sua mãe pensa a respeito da maioria dos seus perfumes, Diana. 😀

      • Exatamente, quem convivieu com florais opulentos, com chipres sensacionais, dificilmente admirará as “águas doces” de hoje. Mas é tudo questão de época, de momento histórico. Talvez nossas filhas ou netas venham o odiar os gourmands, vai saber.
        Também tenho uma atração por perfumes estranhos, datados, atordoantes, odiados… Mas um dia cometi a besteira de me entupir do Femme da Rochas e ir trabalhar. Pensei que ia morrer sfocada, parecia que estava inalando algum ti´po de veneno. Eles requerem muito comedimento.

    • Múmia do Mozart foi boa… Mas olha, faz sentido. Outro dia estava assistindo um programa da National Geographic (não lembro qual), e tinha lá a mão de uma múmia. E todos os pequisadores ou curiosos que estavam lá envolvidos com tal peça a cheiravam e diziam que tinha um cheiro de especiarias, resinoso e até bem gostoso. Usava Bal a Versailles, tal egípcia…

  2. É fato que alguns perfumes são obras-primas, e nem por isso a gente precisa gostar deles. Existe muita coisa boa da qual eu não gosto, mas sei que é boa, entende? Imagino que esse seja assim. E posso falar? Ando com uma vontade louca de catar uns do tipo, só pra ficar admirando. Mas aí eu paro e penso que não conseguiria ter perfumes pra não usá-los. Vai entender.

  3. Primorosa resenha! Abertura dramática. Parece fabuloso, mesmo com as limitações de dia, hora, local e humor, kkkk. Alguns perfumes são assim mesmo. E essa nota animálica, ou as bolorentas e meio podres, se bem usadas, enriquecem profundamente uma fragrância. Isso me fez lembrar uma história, não com o Bal a Versailles, mas com um outro contraditório e polêmico. Quem em alguns caras ficava ótimo e em outros parecia um pesadelo. Eu me enquadrava na primeira categoria; modéstia à parte. Lembra do Lapidus, o infame e difamado, de Ted Lapidus? Não brigue comigo, sim; eu já tive um, ok só um. Kkkkk. Ele é capaz de fazer até as mais comportadas perderem o foco do assunto. Digo por experiência. O relato é assim: dia frio; ambiente de trabalho; traje formal com gravata e tudo. De momento, precisei carregar algumas caixas de produtos. Dobrei as mangas a meio antebraço, tirei a gravata e abri os dois primeiros botões da camisa. O esforço causou transpiração; fez exalar a quantidade mínima de perfume que eu usava. Ao que a chefe passa ao meu lado e sente aquele que em mim fica doce e cativante, sensual e animálico – Lapidus; olha minha camisa aberta, nesse momento o cordão de ouro branco e o crucifixo penderam para fora, quase como um convite, chamando ainda mais a atenção dela, que nunca tinha me visto com os braços e peito à mostra. Uma cena confusa, espontânea, provocantemente desconcertante para mim e para ela. E olha que não sou nenhum Gianecchini. Percebi que ela ficou meio “zonza”. Como sou um cavalheiro, continuei calado e trabalhando. Ela parou, encostou-se num móvel a uns dois metros de mim, com a caneta no canto da boca (esse era um costume dela; mulheres, nunca façam isso, mesmo que seja por mania), desprendeu os cabelos e perguntou, retomando a autoridade: “falta muito para terminar?” Respondi: “não, senhora; estas são as últimas.” (Ela não queria aparecer não; fez tudo como sempre fazia, soltava os cabelos antes do expediente externo começar.) Ela respondeu: “muito bom, então podemos mandar abrir a loja; acho melhor recompor seu traje!” O efeito Lapidus então foi sublimado por ambas as partes. Nesse mesmo dia, minha namorada pediu que eu não usasse mais esse perfume no trabalho (e olha que eu usava, como disse Marlyn, duas gotas!). Coincidência? Instinto feminino?

  4. Apesar de saber que me cai bem, não consigo mais usá-lo. Estranho. Acho que meu gosto mudou. Igual ao Hugo, o tradicional, usei tanto que acho que enjoei.

  5. Acompanho seu blog e adoro… sou louco pra conhecer esse Bal, pois tb me amarro em perfumes “difíceis”, odeio mesmice, já encomendei o meu hoje, qd chegar te conto! Belo blog, parabéns!!!

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