O CHEIRO DAS PALAVRAS: O OLFATO NA NARRATIVA LITERÁRIA – Recomendação de Leitura

Excelente dissertação no link abaixo!

http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2169

Uma vez que somos tão carentes de literatura sobre o tema (perfumaria, olfato e demais assuntos relacionados), recomendo a leitura da tese de Cristina Gomes.

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A Índia da antiguidade e seus aromas…

Egípcios e outros povos do Oriente Médio buscavam essências e óleos perfumados na terra chamada de Punt (Punt ou Reino de Punt era o nome que os antigos Egípcios davam a uma região da África cuja localização não foi até o momento, identificada). Seria lá a Índia?

Sabemos que a Índia era rota das caravanas e rotas comerciais. Em um livro de J. Vercoutier sobre o comércio na antiguidade cita-se o fragmento de uma carta de um comerciante da Mesopotâmia: “Procure as tabuinhas de cedro… trinta quilos de murta de boa qualidade, trinta de cálamo aromático e grandes troncos de madeira de pinho e, depois, entregue todo esse material para mim…”.

Os assírios e babilônios gostavam muito das essências intensas e embriagantes obtidas das flores e resinas de árvores típicas da Índia. Das regiões meridionais da Índia também vinha uma resina balsâmica extraída da planta do espinheiro, utilizada tanto para unguentos para aromatizar bebidas. No extremo sul do país e no Ceilão, deixavam secar finas folhas da madeira de cinamomo, que depois eram enroladas e utilizadas para aromatizar alimentos (nossa conhecida canela-em-rama). A cânfora também servia como unguento e era empregada pelos egípcios para embalsamar. Em toda a Índia era produzido o cardamomo, cujos ramos depois da floração produziam sementes escuras que, espremidas, resultavam em óleo perfumado muito utilizado para massagens e na medicina tradicional indiana.

Trabalhadores na Índia fazem attar

Outros aromas que vinham da Índia:

Aloés: a sua resina perfumada servia aos persas como incenso. Os egípcios utilizavam em para embalsamar.

Cúrcuma: pó amarelo obtido de uma raiz, picante e utilizado para dar aroma e sabor aos alimentos.

Funça (não achei nenhum dado sobre tal planta): as raízes desta planta herbácea muito comum na Índia eram reduzidas a pó e deste eram feitos ungüentos perfumados.

Pimenta: era a especiaria mais valiosa. A comprida vermelha vinha da Índia setentrional, enquanto a preta era originária de Malabar e devia secar ao sol antes de sua maturação. Se o fruto em forma de espiga fosse deixado para secar depois que a maturação tivesse ocorrido, transformava-se em pimenta branca.

Matéria extraída da revista: ”O Fascinante Mundo dos Perfumes”, Ed. Planeta, Vol. 1, Fascículo 13, 1998.

Blue Sugar, Aquolina

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Ah, Aquolina, por que tão doce? Essa marca italiana desperta a minha criança interior gulosa, ávida por doces (compulsiva na verdade…).

Embora Blue Sugar seja considerado masculino, eu comprei o dito cujo para meu uso. Ele é plenamente compartilhável, mas digo: tem que gostar de aromas doces, doces de doer os dentes!

Foi apresentado ao público em 2006. 

Notas de saída: bergamota, mandarina.

Notas de coração: patchouli, lavanda, coentro, algodão-doce, glycyrrhiza (gênero de plantas a qual pertence o alcaçuz).

Notas de fundo: fava-tonka, anis estrelado, cedro.

Blue Sugar abre com notas levemente amargas, açúcar queimado (queimadinho mesmo, quase perdendo o ponto e ‘amargando’). Para dizer a verdade não percebi as notas cítricas citadas em sua pirâmide olfativa… Sinto mesmo é um odor herbal amargo que permanece por um tempo (uma vez minha avó disse que a coisa mais amarga que ela já tinha sentido na vida foi chá de losna. Um dia comprei uma muda de tal planta, e não contente em esmagar suas folhas entre os dedos e cheirar, inventei de lamber… NUNCA na vida sentirei algo tão amargo. E o pior, o gosto não sai da sua boca por um tempo: pode comer, beber, cuspir, chorar, não adianta, o amargor continuará lá…). Mas calma, foi só uma lembrança, Blue Sugar tem um amargo leve, herbal, acredito que vindo da lavanda e do coentro. E lá em algum canto, escondido, tem um tiquinho de café. Logo aparece o patchouli morno e cristalizado com açúcar, nada terroso. A planta do gênero Glycyrrhiza (a qual pertence o alcaçuz) nos traz a nota chamada licorice, para a qual não achei tradução. Lembra licor, resinas, frutas, calda. Mais uma lembrança olfativa: quando criança eu tomava um xarope definitivamente delicioso a base de alcaçuz! Ele era marrom, espesso, doce e deixava um sabor residual tão exótico… chamava Angico Pelotense! A nota de algodão-doce faz o ‘amarguinho’ sumir e vem insidiosa, morna, infantil, reconfortante. É puro açúcar cristal colorido, e me faz sentir ao lado de uma máquina Algodoinha (estou saudosista hoje, repararam?). Para mim a nota mais perfeita de algodão-doce que um perfume conseguiu reproduzir!

Depois de muitas horas inebriada pelo odor da infância, (que vinha colorido em tons pastéis dentro de saquinhos com uma bexiga vagabunda ou anel de plástico amarrado na ponta), surgem as notas da fava-tonka e do anis estrelado. Esse último dá uma tonalidade mais ardida ao perfume, como se o algodão-doce fosse invadido por balinhas de anis. A fava-tonka dá uma ‘alisada’ no algodão-doce e o torna mais abaunilhado e amendoado. 

Enfim, Blue Sugar é uma overdose de açúcar e outros aromas doces-exóticos. Aos ‘formigas’, um delírio! Aos que se arrepiam com notas doces, gourmands, distância!

Eu pessoalemente gosto bastante da linha Aquolina. Eles traduzem como ninguém o gourmand-fetiche dos odores da infância misturado a notas adultas e exóticas, que resultam em perfumes quentes, gustativos e sensuais. Ouvi dizer que alguns dos perfumes lançados recentemente pela marca perderam tal identidade olfativa e estão aguados e sem graça (tal como os novos Steel Sugar e Simply Pink). Será? 

Ah, recomendo que vocês experimentem o picolé da Turma da Mônica de Algodão Doce da marca Jundiá (não é publicidade não, a Jundiá nem sabe que eu existo). É que ele tem o ‘gosto do cheiro’ de algodão doce (pura sinestesia)…

Belle d’Opium, Yves Saint Laurent

Da série: amostras que recebi do querido Dino Napoleão.

Belle d’Opium e eu temos uma relação complicada. Quando vi o vídeo da campanha publicitária não soube dizer se achei exagerado e de mau gosto ou se achei que ficaria de frente com um perfume viciante e intoxicante que marcaria a nova geração, como fez deu antecessor, o Opium.

Ainda associei o nome ao filme Belle de Jour, e fiquei esperando algo dramático, sensual, misterioso, convidativo. Enfim, a curiosidade era grande!

Logo depois tive a oportunidade de experimentar o tal Belle em uma loja física. Na hora achei que o perfume da moça era falsificado, mas não, não era. E continuei, por horas procurando minhas esperanças naquela fita olfativa…

Gosto do Belle d’Opium, mas acho que ele não ‘orna’ com a proposta da campanha publicitária. Ainda acho que ele é um daqueles flankers que vêm para conquistar as filhas das mulheres que nos anos 80 usaram e abusaram do Opium tradicional (criado em 1977).

De tanto procurar, achei nele algo do ‘perfume pai’: o cheiro de maquiagem e demais produtos de toucador femininos que podem suscitar fetiches. Desta vez docinho. Só.

Mas ok, vou tentar falar de Belle d’Opium sem tentar compará-lo…

Foi apresentado ao público em 2010 e os perfumistas responsáveis são Honorine Blanc e Albert o Morillas.

Notas de saída: mandarina, gardênia, jasmim, lírio Casablanca.

Notas de coração: incenso, pêssego, tabaco, notas frutais, pimenta branca.

Notas de fundo: sândalo, patchouli, âmbar.

Abre com bonitas, empoeiradas e adocicadas notas de florais brancas. Tem lá suas intenções intoxicantes, mas são sutis, juvenis e um pouco desajeitadas. Logo sinto as notas esfumaçadas do incenso e do tabaco, mas elas estão tão impregnadas das notas frutais docinhas e cor-de-rosa que acabo por não mais percebê-las… Tal aroma ‘fumaça-doce’ adquire uma tonalidade mais adulta com o decorrer dos minutos: fica com cheiro de maquiagem, de penteadeira. Nesse momento ‘transição’ gosto muito do Belle! É como se a adolescente finalmente crescesse e começasse a ver o mundo através dos olhos de uma mulher!

As notas de fundo são bem distintas, o patchouli é suave e doce, o sândalo e o âmbar promovem sensação de aconchego, calor e sensualidade. Outra vez é a sensualidade comedida e tímida daquela que há pouco se descobriu mulher, e ainda não sabe bem o que fazer com ela. Agora até entendo a propaganda, seu repentes de ousadia e sensualidade desengonçada…

Belle d’Opium é um bom perfume, não é nem juvenil e nem adulto, é transitório. Só gostaria que a fixação fosse maior, em minha pele durou por 3 horas, depois disso só ‘esfregando’ o nariz contra a pele. A embalagem é linda, remete a clássica embalagem-inro do Opium de 1977. As tonalidades me fazem imaginar um pôr-do-sol e o início de uma noite cheia de descobertas e possibilidades… e no final, acredito que essa seja o intento do Belle, atingir consumidoras jovens que fogem do estereótipo ‘mocinha-sem-sal-e-com-a-mesma-roupa-da-vizinha’ da grande maioria dos lançamento atuais. Mas tem futuro tal moça! Ela chega lá!