Amour Le Parfum, Kenzo

Primeiro quero agradecer a querida Vanessa Anjos pelas amostras e pelo carinho! Aliás, tenho muito a agradecer aos amigos que são tão generosos com amostrinhas!

Faz um tempo, mas já tive amostras do Kenzo Amour Le Parfum antes do blog. Lembrava que tinha gostado muitíssimo e ansiava por senti-lo novamente. Eis que recebo da Srta. Anjos uma amostra e claro, obviamente, ele voltou ao topo de minha wishlist…

O pássaro-totem-dourado me faz viajar para longe, para lugares exóticos e quase inexplorados. Um lugar que mistura elementos da arquitetura oriental com praias quase desertas rodeadas por plantações de orquídeas vanilla, frangipani e flores exóticas. As vezes Kenzo Amour Le Parfum me faz imaginar uma ilha paradisíaca e quente, com mar azul e brisas constantes, carregadas de aromas exóticos e misteriosos. Em outras imagino um Japão antigo, com gueixas, kimonos, samurais e divisórias de papel-arroz….

Seu aroma é pungente, incensado, balsâmico, ambarino e esfumaçado. É quase mágico! Exala mistério, sensualidade discreta e íntima (coisa de gueixa, eu falei!).

Foi criado por Daphne Bugey.

Notas de saída: arroz, incenso. Interessante como aqui encontramos na abertura, e não na ‘base’ do perfume.

Notas de coração: frangipani, patchouli.

Notas de fundo: âmbar, baunilha, benzoim.

Abre com nuvem incensadas e a curiosa nota de arroz! E não é que dá pra sentir o toque ‘empoeirado’, do arroz? Segue com o exotismo da flor frangipani e a profundidade terrosa do patchouli. Ganha ‘peso e volume’, cresce na pele e expande de forma considerável. As notas de fundo são perceptíveis desde o início. E para mim aparecem assim: doce-resina-doce-fumaça-doce. Veja bem: o ‘doce’ aqui não é nada gourmand, é um aroma profundo, terroso, abissal. Vem das profundezas e explode ao atingir o campo aberto…

Só fico triste por não conseguir visualizar o tal pássaro do frasco. Só se a parte ‘gordinha’ do frasco for a barriguinha da ave, e a tampa for o pescocinho esticado durante o voo, mas acho que a proposta não é essa… vai além: é o símbolo do alcance e extensão do amor, e a cor dourada define sua preciosidade e eternidade. O que antes mudava de cor (em Kenzo Amour), agora é definitivo, sagrado, eterno e imutável. É ouro!

Nu, Yves Saint Laurent

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Não consigo me conformar com a ideia do Nu ter sido descontinuado… Conheci recentemente graças ao querido amigo Dino Napoleão, que gentilmente mandou, com muita gentileza e generosidade um frasco de tal perfume para que eu conhecesse. Ele disse que a fração que restava no frasco estava com traços de oxidação, e sim, tem algo em vias de oxidar, mas que não consegue apagar a beleza de tal fragrância. Vamos dizer que ao borrifar na pele, sinto por alguns minutos algo ‘estranho’ e alcoólico, mas logo essa nuvem dissipa e Nu mostra toda sua potência.

Nu está de fato, despido. É um dos perfumes mais sexualizado, apelativo, carnal e quase promíscuo que já senti.

Suas notas são quentes, profundas, ao mesmo tempo viris e de uma feminilidade felina. É do tipo de projeta muito bem, mas o desejo que suscita mesmo é de ficar próximo, de grudar no cangote e absorver tal aroma… Até mais, dá vontade de introjetar o cheiro e fazê-lo pertencer a nós. Como se fossemos nós a fonte de tal odor…

Foi lançado em 2001 e o nariz responsável por tal obra é Jacques Cavallier.

Notas de saída: bergamota, cardamomo.

Notas de coração: orquídea, jasmim, pimenta preta, incenso.

Notas de fundo: sândalo, almíscar, vetiver.

Nu abre com especiarias, mais do que só o cardamomo. Imagino que seja o aroma dos carregadores de caixas e mais caixas das mais diversas especiarias dos mercados persas que idealizamos lendo histórias antigas… tem algo de pele e de suor, tem o doce/picante dos temperos…

Logo as notas felinas do incenso e das orquídeas surgem. Vêm polvilhadas de pimenta e algo resinoso e licoroso, mas não chega a ser doce. É denso, escuro, sexual, melífluo. Lembra-me flores noturnas, que desabrocham na calada da noite, exalam seu aroma hipnótico e deixam seu néctar a disposição de animais noturnos e estranhos…

As notas de fundo são cálidas, picantes e sensuais. Madeira, raiz, animal. Perduram na pele de modo provocante e macio.

É um perfume tão bem construído que inspira contrastes: masculino e feminino, rico e decadente, ato ritualístico e ato carnal.

Algo nele me trouxa á memória o Kingdom de Alexander McQueen, outro descontinuado e de difícil acesso. Não posso dizer o que é, pois senti Kingdom apenas uma vez na amostra da querida Adriana Meire.

A embalagem é outra dualidade: de linhas geométricas, é clean. Por outro lado, o encaixe da embalagem no frasco, do frasco na embalagem é simbólico. O próprio frasco se abre de forma inusitada, se desnuda e se veste, e não permite que vejamos o que está em seu interior. Como um jogo de sedução, onde tendemos a nos perder cada minuto mais…

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ImagemMais uma vez te agradeço Dino Napoleão, pelo presente e pela amizade…

 

Black Magic, Bombi (apenas uma curiosidade…)

Black Magic, Bombi – almiscarado, picante e intenso, lançado em 1945.

Suas notas: sândalo, patchouli, ylang ylang, talco de bebê.

Segunda-feira, dia 17 de maio de 1945. Em São Francisco, EUA, os leitores de um jornal de grande circulação foram surpreendidos com uma de suas folhas totalmente perfumada, impregnada com o perfume Black Magic. Diz a lenda que a fragrância fora misturada a tinta da impressão, idéia da loja de departamentos Emporium e da Bombi Perfumista. Resultado: naquele dia, todas as edições do jornal e os frascos de tal perfume foram vendidos!

Genial não é mesmo?

Um rim por um Black Magic…

Imagens retiradas do site do Ebay.

Promessa é dívida! Com vocês, Caron!

Comecem dando uma voltinha aqui: http://www.parfumscaron.com/. De morrer né?

Pois vamos a um resumo da história dessa magistral perfumaria…

Caron é uma lendária perfumaria fundada por Ernest Daltroff em 1904. Sem nenhum treinamento formal como perfumista, mas com um amor para perfume incutido por sua mãe e um nariz muito talentoso, Daltroff começou a criar o que viria a ser uma das mais duradouras e queridas casas na história da indústria de perfumes.

Em 1901 ou 1902, Ernest Daltroff e seu irmão Raul compraram uma pequena perfumaria chamada “Emilia”, localizado na rue Rossini, em Paris, possivelmente com alguma ajuda financeira de um homem chamado Kahann. Em 1903 a empresa foi transferida para 10 rue de la Paix e renomeada “Caron” (fonte: http://www.perfumeprojects.com/museum/marketers/Caron.shtml).

A história da Caron é uma história de amor secreto. Daltroff contratou uma ex-costureira, Felicie Wanpouille, para ser conselheira artística da companhia. Wanpouille supervisionou o design dos frascos da empresa e das embalagens, e desempenhou um papel fundamental no sucesso da empresa. Wanpouille foi musa de Daltroff e houve rumores de ser apaixonado por ela, mas nunca declarou formalmente esse amor.

Tomara que na juventude ela tenha sido gatinha…

Narcisse Noir (1911) foi o primeiro perfume da casa a ganhar notoriedade. Esta fragrância icônica mais tarde foi imortalizada no filme “Sunset Boulevard”, embalada nas mãos de Gloria Swanson (ver imagens do filme aqui: http://www.youtube.com/watch?v=tCv1Fd0oH_E). N’Aimez Que Moi, lançado 1916 (“Love No One But Me”) é dito por alguns como uma expressão segredo de afeto entre Daltroff e Wanpouille. Tabac Blond, introduzido em 1919, foi projetado para o novo estilo de mulher emergente na época, alguém que não tinha medo de contestar convenções sociais vigentes, como fumar cigarros em público.

Em 1930 a casa produziu um pó fácil que fez muito sucesso que e ainda está disponível hoje. O processo de fabricação de tal pó é um segredo muito bem guardado.

Com a Segunda Guerra Mundial e os nazistas se aproximando, Daltroff, que era judeu, fugiu para a América para escapar da perseguição, deixando Caron em mãos muito capazes de Wanpouille. Daltroff nunca mais voltou para a Europa e faleceu em 1947.

Wanpouille manteve a casa em atividade, introduzindo novos perfumes em colaboração com outros perfumistas e supervisionou as operações até sua morte em 1967.

Patrick Alès comprou a Caron em 1998, e Romain Alès dirige a empresa hoje.

A casa Caron é a única que continua a oferecer as criações originais de Ernest Daltroff, muitas das quais ainda são produzidos na mesma embalagens ou em frascos semelhantes. Caron também se destaca por oferecer belas garrafas reutilizáveis ​​de todos os tamanhos, com fragrâncias armazenadas em belas fontes de cristal Baccarat.

      

A Caron tem 48 perfumes em seu ‘portfolio’. A primeira data de 1911 e o mais recente é de 2013. Já passaram pela Caron os perfumistas Dominique Ropion, Richard Fraysse, Michel Morsetti, Gerard Lefort e Jean-Pierre Bethouart.

Em breve falerei de outros perfumes da marca. Caron, continue sendo esse monumento, esse tesouro. Um dia ainda verei de perto suas fontes em cristal Baccarat…

Nocturnes, de Caron

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Um belo exemplo de perfume clássico sem ser datado. Como tudo que a Caron já fez, é belo! Um perfume excelente, de qualidade exemplar, de beleza estonteante. Fixação e sillage perfeitas, sem ser invasivo ou incômodo aos demais. 

Nocturnes abre com bela tonalidade aldeídica (não com arroubos, mas com elegância atemporal e feminina), flores em plena florescência e com frescor levemente cítrico e verde.

Foi criado em 1981 pelo nariz Gerard Lefort e teve uma releitura em 2013 (o engraçado é que segundo um site especializado, as notas continuam as mesmas, porém a família olfativa muda de “floral aldeídica” para “floral amadeirada musk”, vai entender… será que até a eterna Caron se rendeu aos relançamentos insípidos? Quero acreditar que não. Acho que foi só uma leve ‘modernizada’ no aroma, talvez menos carregado de aldeídos…).

Notas de saída: laranja, aldeídos, notas verdes, bergamota, mandarina, tintura de rosas, neróli.

Notas de coração: ylang-ylang, jasmim, ciclamen, raiz de íris, lírio-do-vale e tuberosa.

Notas de fundo: vetiver, musk, sândalo, benzoim, baunilha.

Em minha percepção Nocturnes abre com aroma de rosas intenso e reforçado pelos aldeídos. O neróli é delicado porém presente, e ‘quebra’ a força das rosas e dá lugar a um aroma de flores límpidas e luminosas. As notas verdes e cítricas perduram por bom tempo e deixam o perfume mais ‘leve’, mais ‘elevado’ (deculpem, mas não achei palavra melhor para definir a sensação). Logo o aroma do ylang-ylang aparece, junto com o jasmim e a tuberosa (esses dois são discretos, nada da pungência animálica e orgânica que muitas vezes essas duas flores possuem). A raíz de íris dá um leve toque atalcado e acentua a característica clássica do perfume.

Ao fundo, percebo o vetiver e o sândalo. O benzoim e a baunilha só aparecem depois de muitas horas de uso, são adocicados e encorpados.

Nocturnes é um perfume difícil de descrever. Lembra muito brevemente o Chanel N°5 EDT, mas logo passa. É bem menos carregado e mais moderno, tem o aroma floral mais leve e mais arejado. 

Nocturnes, como sugere o nome, é notifvago. Tem uma afinidade com as horas escuras, com o arquétipo da mulher fatal, que enfeitiça e domina o ambiente com sua presença. É o perfume de uma mulher que parece inocente, mas é pura volúpia. É o arquétipo da feiticeira.

Mas eu sou sem noção e uso de dia, desde que com temperatura mais baixa…

Bom, é um Caron (lendária casa fundada em 1904 por Ernest Daltroff, ainda essa semana falarei mais sobre ela…), e isso já diz muito sobre o perfume. É um grande clássico, mas perfeitamente adaptado aos dias atuais, para todos admiradores da alta perfumaria e das fragrâncias imortais…

Fancy, Jessica Simpson

ImagemDiabéticos, mantenham distância! Propensos a cáries idem! Eu, como boa formiga admiradora dos perfumes doces e gourmands, me rendo e me aproximo! 

Fancy foi criado em 2008 pelo nariz Alexis Dadier e trás o nome da cantora/atriz (?) Jessica Simpson. Uma vez fui fazer uma troca com uma pessoa em uma estação do metrô, e ela gentilmente trouxe o Fancy para eu conhecer. Como adoro perfumes com a baunilha bem pronunciada, gamei. E aí pedi para o meu marido de presente… Ganhei, claro, e olha que ele nem gosta de perfumes com alta taxa glicêmica.

Fancy é uma overdose de baunilha e caramelo! Embora tenha várias notas em sua composição, eu humildemente só sinto baunilha, caramelo, notas amendoadas (na verdade, cheiro de Nutty Bavarian) e algumas notas frutais indiferenciadas e em calda.

Notas de saída: pêra, damasco, frutas vermelhas (eu sinto um quê bem leve de cerejas ao marrasquino).

Notas de coração: gardênia, jasmim (onde se esconderam, flores?), amêndoas, caramelo.

Notas de fundo: sândalo, baunilha, âmbar.

Muitas das notas acima eu não sinto nem de longe. A gardênia e o jasmim foram dar uma volta com medo de ficarem melados, o sândalo adormeceu, a pêra se afogou na calda de caramelo. Mas o importante é que Fancy é doce e tem uma baunilha gustativa, quente e sensual. E o melhor: não achei ele invasivo. Explico: ele fica mais “rente” à pele, é do tipo que convida a um “cheiro no cangote”, não faz a linha Fantasy ou Egeo Dolce, que dominam o ambiente (claro, se usado com moderação). Fancy é mais elegante neste ponto…

Fixa muito bem, exala na medida, trás uma sensação acolhedora, confortável e sexy. É um convite para uma degustação…

O pior? Cada vez que uso o Fancy lembro da chatonilda música do ‘do-do-do-do-doce, doce igual caramelo’, a tal do BumbleBee Camaro Amarelo… Isso definitivamente não me agrada, mas dependendo do humor do dia acho até engraçado…

Le Chevrefeuille, Annick Goutal

Recebi essa semana um adorável presente da amiga de APP, Rê Ladeia. Entre os mimos, estava uma generosa fração do perfume Le Chevrefeuille, de Annick Goutal.

Annick é hour concours, já sabemos, e Le Chevrefeuille é intoxicante! Floral branco com pronunciadas notas verdes, faz a linha do Diorissimo, um dos perfumes favoritos de minha mãe.

Foi criado em 2002 pelas perfumistas Camille Goutal e Isabelle Doyen.

Ao passar na pele, fui rodeada de uma linda e orgânica nuvem de floras brancas pungentes, com nuances animálicas. Jasmins? Tuberosas? Jacintos? Narcisos? Logo explodem notas verdes, herbais, como grama recém cortada ou folhas esmagadas. Pensei em hortelã, artemísia ou outras ervas aromáticas doces/amargas. Notas cítricas também estão presentes, doces e amargas ao mesmo tempo. O cheiro vem das cascas, não dos frutos. Parece o cheiro daquelas mexeriquinhas pequenas, a chamada mexerica-cravo, de casca fina e bem aromática. 

As flores brancas continuam vigorosas e latentes. Imaginei uma pilastra de jasmins, jacintos e narcisos e em sua volta, “fitas” longas de heras, ervas e outras folhas sacudindo ao vento, graciosamente rodeando tal pilar. Frutos cítricos enfeitam o chão. Dríades em festa…

Notas: jasmim, narciso, petitgrain (um dos 3 óleos essenciais obtidos da laranjeira, destilado da fruta verde), limão, notas verdes, madressilva (já vi tal flor no Ceasa, mas não consigo lembrar de seu aroma, li que lembra jasmim…).

É primaveril e juvenil, mas é também pesado e tem aquele toque “sujo” e quase fecal do jasmim e demais flores brancas carnudas e melífluas em excesso. É bem feminino e tem um jeito clássico. É branco e verde, com pontinhos amarelos…

Tem lá suas breves semelhanças com o Grand Amour, também da marca. Gostaria que sua fixação fosse melhor. Depois de uma hora, quase já não o sentia direito, só bem rente a pele. Acho que é um problema meu, afinal, vários perfumes “carregados” em jasmim (como o Le Fleurs Jasmim, da Molinard).

Le Chevrefeuille é um lindo perfume! Ah, só para constar, seu nome significa “A Madressilva”, e justamente dela não consigo lembrar do aroma, por isso não dei tanto destaque…