Lançamento do livro “Diário de um Perfumista”, de Jean-Claude Ellena – dia 26/11/2013 – na Casa do Saber

Fiquei sabendo de tal evento através do Dênis Pagani, e claro, fiz minha inscrição na mesma hora!
Na tarde do dia 26 saí mais cedo do trabalho, peguei metrô-metrô-trem pau-de-arara e fui na direção da Casa do Saber no Itaim Bibi. Tive sorte, cheguei cedo, comprei o livro, conversei.
Por volta das 20h entramos em uma sala confortável cheia de poltronas, era lá que em breve falaria o mestre Jean-Claude Ellena. Logo ele chegou, sem alarde, sem pompa. Estava vestido de forma discreta, em tons sóbrios e neutros.
Conto agora trechos da palestra/aula/lançamento de seu livro, não vou seguir uma sequência:
Dadas as devidas apresentações, iniciou dizendo “perfume para mim é um ato poético”, disse ter ideias olfativas e depois escrever sobre tal processo. Como está em seu livro, “o odor é uma palavra, o perfume é a literatura” …
Contou sobre o processo criativo do novo perfume da linha Hermessence, o Epice Marine. Conta que a inspiração para tal perfume nasceu de um encontro profissional com um chef de cozinha que logo tornou-se amigo pessoal. O tal chef é apaixonado por especiarias, e um dia estava ‘temperando’ um iogurte com um ingrediente que chamou a atenção de Ellena: era o cominho que havia passado por torrefação. Tal especiaria tem aroma de pão, de sésamo e avelã grelhados, segundo a percepção de Ellena. Recebeu do novo amigo um grande pacote de tal especiaria e solicitou a uma amiga que fizesse a destilação do produto.
O perfume teria então o cheiro da Grã-Bretanha, do oceano frio, das especiarias. Ao levar a criação para seu amigo culinarista, Ellena ouviu do mesmo que faltava algo ali no aroma do perfume: faltava o cheiro da neblina! Ao ser questionado por Ellena, o cozinheiro disse que a tal bruma teria cheiro de ‘tapioca cozida, amido e um certo whisky escocês’.
Ellena não teve dúvidas: encomendou uma garrafa de tal whisky e por alguns dias ‘perfumou-se’ com ele! O novo aroma fora aprovado pelo chef e adicionado ao perfume. Além disso, faltava ali o aroma de uma pequena cidade que já foi rota comercial de especiarias na França. Queria que o perfume lembrasse os barcos, o piche, as cordas.
Nesse momento o perfume fora borrifado no ar e distribuído em fitas olfativas! Foi como visualizar todo o processo até então descrito por Ellena! Tudo estava ali: o cominho imperioso, as cordas de cânhamo, o betume das proas dos barcos, a madeira seca, a maresia, as especiarias, o tom alcoólico, seco e masculino do whisky… magnífico…
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Meu enorme talento para o fotografia comprovado em uma imagem…
Sobre sua história, Jean-Claude conta que mesmo sendo filho de um perfumista, perfumes nunca foram assunto em sua casa, o pai não falava e a mãe não se interessava. Aos 16 anos começou a trabalhar na indústria de Grasse. Isso o auxiliou demais, pois conheceu matérias-primas, processos de extração e outras rotinas da produção de perfumes. Conta ainda que sua inspiração pode vir de qualquer lugar, pessoas, acontecimento. Tudo é anotado, e em algum momento torna-se perfume.
Em um dado momento do evento o público pode fazer perguntas, citarei pequenos trechos…
Ao ser ‘desafiado’ pela apresentadora da palestra sobre um perfume inspirado no brasil, Ellena conta que existe na coleção Hermessence a fragrância Paprika Brasil, e que sua inspiração para a mesma foi o livros “Tristes Trópicos” de Claude Lévi-Strauss. O perfume leva pimenta, e Ellena queria expressar no aroma o ardor e o sabor de tal fruto. Conseguiu. Mais uma vez perfume é borrifado no ambiente e ganhamos fitas olfativas. De fato, dá um comichãozinho na ponta do nariz, um leve e delicioso ardor! O perfume é rico em íris, pimenta e notas amadeiradas. Sinto algo como a polpa do Jatobá, farinhenta, macilenta, não sei explicar bem. O Dênis definiu como ‘bananoso’, e sim, pode-se dizer que é isso. Divino!
Falou ainda sobre a massificação dos aromas, do trabalho do perfumista ser determinado pela equipe de marketing das marcas, da cobrança e pressão que os perfumistas sofrem para criar produtos que atendam ao gosto de milhares. Por isso Ellena é feliz na Hermes… Lá ele tem liberdade de criar o que quiser, de não depender de pesquisas de aceitação popular, somente o presidente/diretor do grupo avalia seus perfumes… Ele é o artista, ele manda em sua obra-de-arte!
Disse que para ele não existem aromas ruins, existem aromas! O que pode ser desagradável para uns pode ser interessante para ele! Cita o exemplo da rosa, que ao receber um pouco de civeta (‘que cheira a merda’, palavras de Ellena), desabrocha e revela toda a beleza de seu aroma!
Foi questionado sobre a perfumaria de nicho, e disse ser extremamente favorável a ela. Conta que a mesma surgiu em 1976, com a marca L’Artisan Parfumeur. Para tal marca Ellena criou o perfume Bois Farine, inspirado em uma viagem que fizera para as Ilhas Reunião. Conta que para criar tal perfume inspirou-se em uma pequena flor que tinha aroma farinhento e em madeira de sândalo. Para auxiliá-lo no processo de criação, comprou um quilo de farinha! Disse também que o consumidor deve ter cuidado com a ‘falsa perfumaria de nicho’ …
Ao ser questionado sobre a sensualidade feminina, Ellena volta no tempo. Fala sobre a perfumaria clássica que durou até os anos 70. Era aristocrática e privilegiava fórmulas longas, complexas. O virtuosismo do perfumista dependia da quantidade de ingredientes que eram utilizados! No final dos anos 70, a perfumaria europeia descobre que seu futuro financeiro estava nos Estados Unidos… A partir daí a perfumaria francesa se adapta aos códigos olfativos americanos, onde a limpeza e assepsia são valorizadas.
Conta que na época, o sabão em pó americano era aromatizado com almíscar sintético, e esse, por ser insolúvel em água permanecia na superfície dos tecidos e consequentemente, passava para a pele de quem usava a roupa. Por isso que até hoje a maioria das fórmulas de perfumes americanos (ou criados para tal mercado), possuem na base de 20 a 30% de almíscar sintético, sempre associado a limpeza. Compara ainda as cenas de amor do cinema europeu e americano: nos filmes americanos a mulher sai do banho, e aí sim vai pra cama com o amado. Nos filmes europeus o amor acontece independente do chuveiro, o aroma corpóreo é tolerado e até mesmo excitante! Deu pra entender a diferença entre sensualidade europeia e americana?
Depois de tamanha aula, ainda tivemos a chance de ter nossos livros assinados, quem quis (eu) tirou fotos e recebeu toda simpatia de Jean-Claude Ellena. O mestre, que diz não ser talentoso – pois tem facilidade em criar aromas. Tendo facilidade, logo não pode ser considerado talentoso, pois é fácil para ele – é simpático, sorridente, plenamente consciente de sua capacidade! É apaixonante!
Diana Jean claude 2 Diana Jean claude 3
Obrigada pelas fotos, Dênis!!

Organza Indécence, Givenchy

Olha só que frasco mais lindo! Não se se interpreto como uma mulher se despindo ou se vejo como um luxuoso vestido com uma capa/cauda…Enfim, prefiro imaginar uma mulher tirando languidamente o vestido, evidenciando suas formas e provocando…
Organza Indecence é sensual e provocante, sem perder a classe. É voyerismo discreto, é jogo de esconde/mostra, é a evidência de pequenas partes de pele que levam a imaginação ao longe…
Foi criado em 1999 por Norbert Bijaoui e Jean-Claude Deville e sim, está descontinuado…
Notas de saída: patchouli, pau-rosa.
Notas de coração: ameixa, canela do Ceilão.
Notas de fundo: a imbatível tríade baunilha – âmbar – almíscar.
Nunca senti o tal pau-rosa isolado, mas percebo que muitos perfumes de sensualidade descarada têm ele em sua formulação. Dizem que o aroma dele oscila entre o feminino e o masculino, deve ser essa indistinção que acarreta tal sensualidade e calor…
O patchouli não tem o toque terroso, tem sim característica doce e profunda, levemente escura e misteriosa.
A canela é picante, porém macia e gustativa. A ameixa dá uma certa ‘suculência’ ao perfume, dá aquela vontade de morder a pele que transmite tal aroma.
A tríade do fundo já é conhecida, transmite calor e conforto. As notas de baunilha se sobressaem, mas sempre polvilhadas de patchouli e canela. O almíscar é aveludado, convidativo e tem algo de pele. Embora eu seja absolutamente contra o uso de peles na produção de roupas e acessórios (e de qualquer outra coisa), acho que Organza Indecence orna com um casaco de peles. E agora sei exatamente qual interpretação dou para o frasco: uma mulher retornando de um evento social qualquer, tirando o casaco de peles que usa por cima do vestido. Embora o clima lá fora esteja frio, seu corpo irradia calor. Avança para seu parceiro de forma felina e lenta… o resto vocês podem imaginar…
Pode ser o nome, pode ser o frasco, podem ser as notas olfativas, mas para mim, Organza Indecence é puro desejo! Deve ser tudo junto…

Obrigada, Vanessíssima, por me apresentar essa preciosidade!

‘Diário de um Perfumista’ e ‘Perfume de Princesa’

Duas excelentes dicas de programas culturais para os fãs da perfumaria, e o melhor: grátis! Soube dos dois através do amigo Dênis Pagani.

Seguem links da palestra e da exposição. A ‘Perfume de Princesa’ fui ontem, mas não estava funcionando em virtude da chuva. Voltarei essa semana e conto aqui pra vocês como foi!

Não deixem de ir!

http://casadosaber.com.br/sp/cursos/lancamento/diario-de-um-perfumista-com-jean-claude-ellena.html

http://www.museudacidade.sp.gov.br/exposicoes-expo.php?id=113

L’Eau en Blanc, Lolita Lempicka

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Mais uma fofura da marca Lolita Lempicka! Ganhei de uma amiga querida que foi para Londres (obrigada, Löody!!).
Sou fã da proposta da marca, que une lindas embalagens e campanhas publicitárias, perfumes com tendência gourmand (porém sem resvalar na linha divisória do brega ou piegas), faz referências ao contos de fadas e ao universo romântico que encanta mulheres de todas as idades. LolitaLempicka é o pseudônimo da designer francesa Josiane Maryse Pivida. O nome foi inspirado na protagonista do famoso romance ‘Lolita’ de Vladimir Nabokav, e como um tributo à pintora polonesa Tamara de Lempicka.
L’Eau en Blanc chegou ao mercado em maio de 2012, foi criado por Annick Menardo e pertence a família olfativa floral frutal gourmand. Tão batido né? Sim, mas esse é diferente! É de um romantismo encantador, tem ares de ‘antigamente’, tem ares de modernidade!
Abre com violeta e íris abafadas, atalcadas e em profusão. Tem frutinhas vermelhas docinhas e suculentas: cerejas, framboesas, e amoras! As notas frutais equilibram a lufada de violetas e íris, acho que se não fossem elas o perfume ficaria poeirento e vintage demais…
O alcaçuz, presente em outros perfumes da marca, dá um leve toque medicinal e licoroso, porém bem mais suave do que nos perfumes anteriores.
O toque doce do Blanc me faz lembrar marshmallow: cor pastel, doce comedido e delicado, textura macia! A mistura de feijão tonka, almíscar e heliotrópio é discreta, mas tem identidade.
Notas de saída: íris, folha de violeta.
Notas de coração: violeta, cereja, framboesa, alcaçuz.
Notas de fundo: vetiver, fava-tonka, almíscar, heliotrópio.
Com o passar das horas, L’eau en Blanc fica mais azedinho, as frutas vermelhas ganham destaque sobre as flores iniciais, o alcaçuz fica mais evidente (mas não menos delicado). As notas de fundo tornam-se mais cremosas, adquirem algo de produto infantil – as notas atalcadas retornam, porém almiscaradas e com toques especiados, achocolatados e doces da fava-tonka e do heliotrópio.
L’Eau en Blanc é ao mesmo tempo juvenil e adulto. Tem o ‘dna’ Lolita Lempicka, mas é delicado, acetinado. Acredito que agrade ao mais diversos públicos e gostos.

Golliwogg, Vigny – E uma reflexão sobre o Dia da Consciência Negra…

 
Dia 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra. Seja eu mal entendida ou não, falarei do icônico perfume Golliwogg, da marca Vigny. Polêmico, esse frasco…
Golliwogg, o simpático personagem negro dos contos infantis virou perfume em 1919.
Alguns o acusam de fomentar o preconceito e chacotas contra negros, outros o defendem como ícone cultural afro-americano. Vivemos hoje em um mundo (teoricamente) politicamente correto. Na verdade acho que estamos nos tornando cada vez mais hipócritas e dogmáticos, não se pode falar nada: as palavras negro, gordo, gay, branquelo são todas consideradas ofensivas, é bullying… mas as atitudes das pessoas estão cada vez mais preconceituosas e radicais… pra variar, não combina o discurso com a atitude. Eu, a exemplo, sou branquela e gordinha, mas não me digam isso, fico uma vara mentira! Me pergunto onde vamos parar… Mas ok, não quero gerar polêmicas ou discussões…
Se o Golliwogg tinha intenção ofensiva e sarrista, não sei dizer, eu não estava lá. A questão é que ele foi tão importante que tinha bonecos, brinquedos, propagandas e até perfumes com a carinha dele!
 
 
Golliwogg era um personagem de livros infantis do final do século 19, descrito geralmente como um tipo de boneca de pano. Teve grande popularidade na América do Norte, Europa e Austrália em 1970. A boneca é caracterizada com pele negra, olhos contornados de branco, boca vermelha e cabelos crespos e volumosos.
A imagem da boneca tornou-se o assunto de debate. Enquanto alguns veem a golliwogg como um artefato cultural e inocente brinquedo, outros argumentam que a golliwogg é um exemplo de racismo contra pessoas de ascendência Africana. Afinal, o termo era usado pelos ingleses como um modo pejorativo de chamar pessoas de pele negra de origem asiática ou africana.
A escritora Florence Kate Upton nasceu em 1873 em Flushing, Nova York, filha de pais ingleses que haviam emigrado para os Estados Unidos há três anos. Após a morte de seu pai, ela se mudou de volta para a Inglaterra com sua mãe e irmãs, quando ela tinha quatorze anos. Lá, ela passou vários anos desenhando e desenvolvendo suas habilidades artísticas. A fim de pagar taxa de matrícula para a escola de arte, ela ilustrou um livro infantil intitulado “As Aventuras de Duas Bonecas Holandesas e um Golliwogg”. O livro incluiu um personagem chamado o Golliwogg, que foi descrito pela primeira vez como “uma visão horrível, o mais negro gnomo”, mas que rapidamente acabou por ser um personagem cativante e simpático. Ele usava calças vermelhas, uma camisa com um colarinho duro, gravata borboleta vermelha e um casaco azul com cauda.
 
 
O livro de Upton foram extremamente bem sucedidos na Inglaterra, em grande parte por causa da popularidade do Golliwogg. A boneca golliwogg tornou-se um brinquedo popular entre as crianças durante a maior parte do século 20, e foi incorporada em muitos aspectos do comércio e da cultura britânica. O Golliwogg de Upton era jovial, simpático e galante, mas alguns golliwoggs posteriores foram sinistros ou personagens ameaçadores.
 
O perfume Golliwogg:
 
 
A marca Vigny criou em 1919 o perfume chamado Golliwogg. Há diferentes tipos de frascos do perfume que são colecionáveis das décadas de 20 e 30 com a figura de Golliwogg. Eram frascos de perfume envoltos em uma caixa de cetim/seda rosa e em dois tamanhos com o rótulo de “Le Golliwogg, de Vigny, Paris França”. Há também um perfume Golliwogg lacrado por uma rolha e com cabeça de baquelite e outra coleção com 3 frascos de tamanhos diferentes na mesma embalagem.
 
 
 
 
O Golliwogg da Vigny é vendido atualmente por preços elevados (podem chegar a 400 dólares, taí o Ebay que não me deixa mentir…), dependendo das condições. É muito procurado por colecionadores de perfumes e de colecionadores de objetos da Cultura Negra.
Na Paris dos anos 20, Golliwogg tornou-se um tributo a cantora de jazz Josephine Baker e seria considerado um exemplo do africanismo e influência étnica na perfumaria. Atualmente o termo não é bem aceito.
 
 
Foi lançado em 1919 na França, e em 1925 nos EUA. A embalagem do perfume foi criado por Michel de Brunoff e seu irmão-de-lei Lucien Vogel (um dos fundadores da Vigny) – ambos o editores da Vogue francesa. O nariz por trás desta fragrância é Jacque Vogel.
Li por aí que ele se parecia com o Chanel N°5…
Eu acho o Golly um encanto! Adoraria ter um frasco de tal perfume…
 
 

Perfumados Fragmentos Literários – Charles Baudelaire

Charles Baudelaire, por Gustave Courbet, 1848
 
O cão e o frasco
 
— Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente
perfume comprado no melhor perfumista da cidade.
E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal
correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, põe o nariz úmido no frasco
destampado; mas subitamente, recuando de susto, late contra mim, à maneira de reprimenda.
— Ah, miserável cão! Se eu te houvesse oferecido um embrulho de excrementos, decerto o
cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundícies cuidadosamente escolhidas.
 
(BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas e prosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1950 – trad. Aurélio Buarque de Hollanda. p. 25)