Perfumados Fragmentos Literários – ‘Eternidade por um Fio’, de Ken Follet

“Eternidade por um Fio” faz parte da trilogia “O Século”, de Ken Follet.

A saga deste terceiro e último volume inicia em 1961, época da Guerra Fria e da construção do Muro de Berlim.

Um dos personagens, Dave Willians, adolescente apaixonado por música e guitarrista de uma banda de rock’n’roll, pede ajuda a seu primo Lenny (que vivia de pequenos negócios e algumas falcatruas) para conseguir uns trocados que garantiriam sua noite em um clube noturno.

Consegue então um dia de trabalho com Lenny no Mercado de Aldergate “…onde vendia Chanel º5 e outros perfumes caros a preços ridiculamente baixos. Sussurrava para os clientes que eram roubados, mas na verdade eram apenas imitações, fragrâncias baratas em frascos de aspecto caro”.

Vamos a mais alguns trechos?

…Lenny se virou para uma cliente.

– Muito bom gosto senhora. Os perfumes Yardley são os mais classudos do mercado… mas esse frasco aí na sua mão custa só três shillings, e tive que pagar dois shilling e seis pence* ao cara que roubou, digo, que me forneceu o produto.

A mulher riu e comprou o perfume“.

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“Dave continuou imitando o discurso de Lenny, e depois de alguns minutos conseguiu vender um vidro de Joy, da casa Patou, por dois shilling e seis pence. Não demorou a aprender todas as falas do primo. ‘Nem toda mulher tem personalidade suficiente para usar esse aí, mas a senhora… Só compre se houver um homem a quem realmente queira agradar… Está fora de linha, o governo proibiu por ser excessivamente sensual…”

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” – Olá jovem! Que tal um perfuminho para a namorada? Experimente o Fleur Sauvage. Calcinha no chão garantida, por apenas dois shilling e seis pence”.

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Vamos ver as propagandas da época dos perfumes citados?

‘Fleur Sauvage’, Germaine Monteil, anúncio de 1956.

‘Chanel Nº5, anúncio da década de 60.

Colônias ‘Yardley’, anúncio de 1960.

Jean Patou Eau De Joy Perfume Bottle (1961)

‘Joy’, de Jean Patou, anúncio de 1960.

*Pelas minhas pesquisas, dois shilling e seis pence (tal quantia também era chamada de half-crown, valeria atualmente em torno de 13 dólares.

Trechos retirados das páginas 402 e 403.

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Sensei, Piotr Czarnecki

Recebi fração dessa preciosidade do Daniel Barros, da Ego in Vitro!

Que loucura este perfume, trás na mesma embalagem as concentrações EDT, EDP e Extrato. A fração que recebi é do extrato, olha só que luxo!

É um perfume de notas intensas, é como estar um uma loja de delícias onde tudo pode e tudo tem: bombons recheados de whisky, conhaque, brandy. Tem café expresso cremoso e encorpado a vontade, dane-se a regra de 3 xícaras diárias! Para os fumantes, temos tabacos do mais fino trato aromatizados, aromas doces inebriantes que acesos mais parecem incensos. Gosta de cozinhar? Temos as mais diversas especiarias: quentes, pungentes, vão te levar direto para as Mil e uma Noites de Sherazade!

E tem mel. Mel dourado e viscoso, de nuance animálica e provocante! Sem receios, se lambuze, você veio aqui para isso!

No jardim de inverno de tal casa de perdições queimam as mais preciosas resinas, em turíbulos ricamente ornamentados.

Sensei a cada momento convida a um prazer diferente. Suas notas revelam-se logo no início aos borbotões mas depois se deixando descobrir uma a uma, e quando você der conta, estará inebriado!

Em alguns momentos senti o cheiro de algo emborrachado, resinoso. Devem ser seus incensos…

Engraçado também é como, as vezes, você pensa que ele está chegando ao seu fim, deixando apenas uma bruma perfumada sobre a pele. E aí ele te engana: de repente você é assaltado por alguma de suas facetas, ora o café, ora o mel, ora as especiarias, ora o tabaco!

Suas notas finais deixam em evidência o ambrette e o âmbar.

Vamos a uma outra analogia: sabe o Raghba? Então, é como se o Raghba tivesse sido criado para as pessoas comuns, e Sensei para o sultão…

Foi criado em 2013 por Piotr Czarnecki.

Notas de saída: tabaco, café, whisky.

Notas de coração: incenso, mirra, especiarias.

Notas de fundo: ambrette, almíscar, âmbar, ládano.

Carven Le Parfum, Carven

Quando eu era pequena, um dos perfumes prediletos de minha mãe era o Ma Griffe. Acho que é por isso que fiquei tão curiosa pelo Carven Le Parfum…

Recebi semana passada uma amostrinha, e como não se encantar pelo icônico listrado verde e branco?

Vamos conhecer um pouco mais sobre a marca: Melle Carven, também conhecida pelo seu nome de nascimento de Carmen Tommaso nasceu em 31 de agosto de 1909, em Chatellerault, Viena. Em 1945, num apartamento com vista para a famosa Champs-Elysées que Melle Carven abriu a sua casa de alta-costura, ela que até esse momento jamais trabalhara no mundo da moda. Porém, sentia-se animada por uma ambição muito original: vestir mulheres de pequena estatura, que, tal como ela, não tivessem mais de 1.55m. Desenharia igualmente inúmeros vestidos de noiva. Caracterizado por uma elegante frescura e por uma alegria juvenil, o seu estilo impôs-se rapidamente. O famoso tecido de riscas verdes-claras e brancas, jovem e dinâmico, ficou para sempre associado à imagem da casa. Logo Melle Carven conheceu um homem de negócios que lhe propôs criar um perfume. Foi sem que surgiu Ma Griffe, um dos grandes clássicos da perfumaria parisiense.*

Marca devidamente (e brevemente) apresentada, vamos ao Le Parfum: foi lançado em 2013, criado pelo festejado Francis Kurkdjian e teve Thierry de Baschmakoff como responsável pelo design do frasco. Obviamente, então, estamos esperando muito dele…

Carven Le Parfum inicia vigoroso, fresco, elegante. Flores e frutas ao amanhecer, meio geladas, meio verdes. Nota cítrica-cremosa, nectarinas azedinhas e jacintos frescos e delicados.

As notas de saída prolongam-se deliciosamente, a sensação de estar em um campo primaveril nas primeiras horas do dia é revigorante! Depois aparece a ervilha-de-cheiro, que torna o perfume mais polvoroso e feminino. E aqui surge, entre as flores, uma nota picante, algo entre a pimenta e a cânfora. Não sei definir melhor. Seria o patchouli das notas de fundo se intrometendo? E quando consigo desviar a atenção da nota picante que não sei nomear, sinto que tem um jasmim matreiro ali no meio! Deixa na pele o rastro intoxicante, lá na última camada. Daqueles que tem que chegar bem perto e dar uma ‘senhora fungada’ para sentir. E sair meio desnorteado depois…

Depois de umas 4 horas Carven Le Parfum vai desaparecendo. Deixa na pele leve bruma atalcada/picante/leitosa. Coisas de patchouli e sândalo…

Para mim, ele conseguiu traduzir com perfeição o conceito da marca: ‘elegante frescura, alegria juvenil, dinâmico’. Mereceu e carregou com propriedade a estampa listrada branca e verde de sua caixa…

Notas de saída: flor de mandarina, jacintos brancos, damasco.

Notas de coração: ylang-ylang, jasmim, ervilha-de-cheiro.

Notas de fundo: sândalo, osmanthus, folhas de patchouli da Indonésia.

Desejando 100ml para chamar de meu…

*Fonte: http://100perfumesbylubi.blogspot.com.br/2009/08/28-ma-griffe-carven.html

Eau Aimable (Cologne of Love), Les Couvent des Minimes

Um breve histórico…

No sul da França (Alpes da Alta Provença), um convento foi construído no século 17, no coração da natureza beneficente: Couvent des MinimesSeus primeiros habitantes, os irmãos Minimes, deram o nome a este lugar. Eles construíram jardins e plantavam diferentes espécies de plantas para alimentação, estudo ou tratamento. Durante a Revolução Francesa, tiveram que deixar o convento, que permaneceu desocupado por quase um século.

Esta ordem religiosa foi fundada em 1493 por São Francisco de Paula e logo se espalhou por toda a Europa. Na França, em particular, os seus discípulos se estabeleceram em Perpignan, Rouen e Lille. São Francisco de Paula nomeou seus discípulos de “Os Mínimos”, que significa “o menor” ou “menos”, destacando sua humildade. Eles viveram sob rígidas regras, das quais incluíam: não usar sapatos, não utilizar cavalos para viajar (exceto em condições extremas, quando a viagem a pé era impossível), nunca comer carne ou alimentos de origem animal (apenas frutas, legumes, água, óleo e pão foram autorizados), e muito mais. Por este motivo, os irmãos Mínimos tiveram que cultivar as terras onde se instalaram, para sobreviver.

Anos mais tarde, em 1909, uma comunidade das Irmãs Missionárias de Maria reocupou e transformou o convento em seu lar.Quando não estavam em missões no exterior, elas se dedicavam a cultivar as terras férteis dos jardins em terraços, onde eles plantavam frutas, árvores e plantas. Este cultivo não só fornecia alimentos para os moradores do convento, como também eram usados para receitas que ajudaram os missionários a se recuperar após suas viagens e enfermidades.

Copiei do site da marca tá? Links logo abaixo, dê uma olhada e conheça mais sobre a marca e o atual trabalho das Irmãs Missionárias!

E agora o Eau Aimable… é novinho aqui em casa, estou com ele fazem 3 dias. E não consegui parar de usar.

Nesse calor é um oásis! É uma colônia refrescante e ao mesmo tempo confortável. As grandes estrelas são os cítricos: começa fresca na pele, com nuances verdes de folha. Em breves segundos aparece a flor delicada e discreta, uma brisa de flor-de-laranjeira! E logo depois, imagine laranjas sumarentas e doces, recém colhidas. Daquelas de casca fininhas, que você pode machucar com a unha para deixar gotejar uma amostra do doce sumo…

Folha, galho, flor, fruta, pé de laranja inteiro ali dentro!

Eau Aimable fica adocicada, sem deixar de ser cítrica. Eu, que não sou grande fã de perfumes cítricos, caí de amores.

O cheiro dela me lembra um pouco de essência de panetone. Minha mãe disse que achou que cheira a frutas cristalizadas e meu marido disse que cheira a sabonete. Coisas gostosas e coisa limpa… bem a cara da Eau Aimable!

Notas olfativas: flor-de-laranjeira, petitgrain, bergamota, mandarina, rosa-selvagem, capuchinha (ou nastúrcia).

Segundo o site francês da marca:,

Flor-de-laranjeira: fonte de doçura
Bergamota, Mandarina: fontes de serenidade
Eglantine: fonte de hidratação
Capuchinha: fonte de brilho
Petitgrain: fonte de equilíbrio
Vontade de tomar banho de imersão em Eau Aimable…
no HD illustration available(4)

Fontes:

http://br.lecouventdesminimes.com/sobre-a-marca,8,2,575,8854.htm

http://br.lecouventdesminimes.com/quem-s%C3%A3o-os-irm%C3%A3os-da-ordem-dos-m%C3%ADnimos-,8,2,624,4254.htm

“Moda, Cultura e Frascos de Perfume” – artigo

Hoje trago o excelente texto ‘Moda, cultura e frascos de perfume’, das autoras Maureen Schaefer França e Marilda Lopes Pinheiro Queluz, para a Projética, Revista Científica de Design da Universidade Estadual de Londrina.

Segue link do artigo na revista: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/projetica/article/view/8839

E aqui link direto para a leitura do texto completo:

PDF

Não deixem de ler!

*Na primeira foto, o estilista Paul Poiret (1879-1944), primeiro costureiro a incluir perfumes em suas coleções. Acima, um de seus perfumes, ‘Chez Poiret’, de1912. Quer conhecer mais sobre Poiret? Veja aqui algumas de suas criações.

Jacomo Art Collection #02, Jacomo

Fazia tempo que eu estava de olho neste perfume, criado pela casa Jacomo e Cecilia Carlstedt. Faz parte da ‘Art Collection’, que conta com 3 perfumes criados em parceria com artistas convidados pela grife.

Segundo o site da marca: #02 o mais tátil da nossa trilogia-arte. Um perfume feminino com uma nota floral formada por massa de modelar macia, perfumada e de baunilha em pó, tornando-se viciante e regressivo, bem conhecido mas misterioso, um pouco infantil mas também terrivelmente sedutor.

Descrição estranha né? Tanto quanto o perfume. Um dos mais conceituais que já senti, pura criatividade sem preocupação em agradar as massas. Ah, Jacomo, o mundo agradece sua ousadia!

Abri a bonita caixa do perfume, vi o encarte de papel vegetal com a arte de Cecilia Carlstedt, admirei o frasco preto com detalhes amarelos. Borrifei. Assustei. Passaram-se 2 horas. Me apaixonei.

Borrifei: imediatamente senti cheiro de massinha de modelar ou chiclete ou bala mastigável de aroma intensamente sintético e indistinguível (tutti-frutti? banana? creme de frutas tropicais?), daqueles que as mães evitam dar aos filhos por ter ‘muita anelina’.

Assustei: me senti com os braços enfiados até os cotovelos em um balde de massinha de cor fluorescente e macia. E em volta do balde caíam as dezenas daquelas borrachas coloridas cheirosas que usávamos no curso primário.

     

Passaram-se 2 horas: e eu lá, sentindo o cheiro viciante, estranho e saudoso, mordiscável (inventei agora) da massinha, da borracha e do chiclete.

Me apaixonei: aqui está o segredo do #02. Ele cresce. Cresce de amadurecer, de se tornar adulto. Com o passar do tempo o cheiro das coisas infantis ultra-coloridas dão lugar a um belíssimo couro escuro polvilhado de baunilha que me lembrou muito o Cuir Beluga. Deixa revelar aos poucos as notas ambarinas, polvorosas, mornas! Nunca vi um perfume evoluir de tal forma, ele muda completamente!

A fixação é pequena, média de 3 horas na pele. Mas pela ousadia, pela criatividade e pelo atrevimento, a casa Jacomo merece honrarias!

Notas de saída: bergamota.

Notas de coração: fava-tonka, lírio.

Notas de fundo: baunilha, âmbar, patchouli, couro

Fonte da imagem: http://anos80amelhorepoca.blogspot.com.br/2014/03/borrachas-perfumadas.html

Nemo, Cacharel

Na ‘Mesa Redonda dos Blogs Perfumados’ de outubro (não leu? Dá uma olhada aqui) a Li comentou sobre o Nemo, e eu, curiosa, fui lá nas amostras que ela me mandou certa vez jurando que ele estaria no meio de tantas preciosidades. E estava!

Venci o calor insuportável que está fazendo em SP e coloquei algumas gotinhas na pele… E na hora associei o cheiro a outro Nemo, o Capitão. Aquele, das Vinte Mil Léguas Submarinas, personagem do fantástico Julio Verne, dono do Nautilus… Lembrou?

Nemo em latim significa ‘ninguém’. O Nemo do Nautilus utiliza seu vasto conhecimento científico para construir um submarino elétrico e passa a viver no fundo do mar com alguns homens de sua confiança, praticamente um pirata. Mas especula-se que em sua terra natal, a India, ele era um príncipe!

E deve ser de lá, ou de outras terras exóticas visitadas a bordo de seu Nautilus que vem o perfume:

Nemo ao meu ver é uma belíssima mistura de especiarias, todas moídas manualmente e sem pressa, deixando o aroma de cada uma delas impregnar o ar, desfilar sua beleza. Neste local onde acontece a moenda de tais grãos, queima preguiçosamente incenso, resina de olíbano sagrado!

Inicia com canela em rama, noz moscada, o indefectível cardamomo e incenso ao fundo. Masala Chai

Deixa aparecer algumas tonalidades florais que eu não soube nomear, só posso dizer que são inebriantes, completamente andróginas e dão ‘abertura’ ao perfume, certa claridade. Só me disse o nome a lavanda, velha conhecida…

Finaliza com notas de couro, mais incenso, baunilha e notas amadeiradas picantes e doces. Madeiras de uma terra exótica…

Aí vou eu ver as notas olfativas oficiais: nada de canela, nada de incenso. Mas juro que estão lá.

Nemo é macio, é picante, é doce, é vibrante, é sensual. É descontinuado…

Tem nele algo do Midnight in Paris e algo do Ambre Gris. Coisa bonita viu… Só não vejo sentido no frasco-estilingue, alguém me explica?

Foi lançado em 2000 e o perfumista responsável é Jean-Pierre Bethouart.

Notas de saída: noz-moscada, pimenta, cardamomo, lavanda.

Notas de coração: ládano, cravo(flor), jasmim, gerânio, alcarávia (cominho).

Notas de fundo: patchouli, cedro, baunilha, couro.