Mitsouko, Guerlain

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Mitsouko foi criado por Jacques Guerlain em 1919. Foi inspirado na heroína do romance de Claude Ferrièrre, ‘La Bataille’, uma história de um amor entre Mitsouko, a esposa do japonês almirante Togo, e um oficial britânico. A história se passa em 1905, durante a guerra entre a Rússia e o Japão. Ambos os homens foram para a guerra, e Mitsouko, escondendo seus sentimentos com dignidade, aguarda o resultado da batalha para descobrir qual dos dois homens vai voltar para ela e ser seu companheiro.

Uma especulação: o nome pessoal “Mitsouko” no uso dos caracteres chineses na língua japonesa é Mitsuko. O “Mitsu-” significa “mistério” ou “misterioso”.

 Possui o mesmo frasco de L´Heure Bleue (1912). De maneira simbólica, esses dois frascos abrem e fecham os parênteses entre o início e o fim da guerra.

“Mitsouko é fragrância misteriosa, não permitindo que todos possam ver a sua beleza. A abertura é longa, como um jogo de todas as belas notas, e, é claro, esta fragrância não é para uso diário comum. Na pele soa como se ele começa de longe, sem qualquer alusão à sua intensidade e do lado sensual. Mitsouko é um dos aromas bem conhecidos do grupo olfativo chypre com notas de cabeça frescas e musgo de carvalho na base. Mas também tem uma nota de um pêssego suculento, o que dá uma nuance clara e bastante gourmand. Possui bergamota, pêssego, jasmim, rosa de maio, especiarias (canela), musgo de carvalho, vetiver e madeira. A fragrância é exuberante, incomum e elegante, não muito doce, nem pesado, é bem equilibrada. Eau de Toilette é muito mais nítida, enquanto a Eau de Parfum é mais quente e agradável. A riqueza total da composição, no entanto, é revelado apenas na concentração de perfume” (Fonte: Fragrantica).

Lançado 2 anos depois do mítico Chypre, da Coty (1917) – que deu nome a toda uma família olfativa – Mitsouko é o chypre perfeito! Diz-se que foi um dos primeiros a utilizar o acento sintético de pêssego – aldeído C14.

Mais uma vez a “Guerlain antiga” me confunde e me atordoa… E nem sou fã número um da família chypre… Por que não consigo distinguir as notas com tanta facilidade como consigo com a maioria das elaborações atuais? A resposta é tão simples: maestria, boa elaboração, boas matérias primas, inspiração! Bem como Shalimar, Jicky e Habit Rouge, Mitsouko abre portais. Permite-nos viajar a uma época onde perfumaria era arte, e não comércio. É um dos perfumes mais completos, bem feitos, ricos e atemporais que conheço. Muitos poderão dizer que “cheira a coisa velha”, ou que “é o perfume da avó”, mas por favor, mais uma vez eu digo: não falem isso! Abstraiam essa questão do que “cheira a novo” e do que “cheira a velho”, substitua por ‘cheira a clássico” e “cheira a moderno”, ou qualquer outra terminologia menos chucra, por favor… Mitsouko, apesar de ser inabalável, entristece quando alguém o rotula como perfume de velha…

Mitsouko é perfeito. Ao mesmo tempo leve e pesado, sutil e impactante, delicado e agressivo, conservador e transgressor. O aspecto “guerlinade” é suave e com pouco do atalcado característico desta época da perfumaria Guerlain. Mitsouko é seco, é frio, mas não distante. É reservado, é misterioso, como seu nome sugere. Passou sim por reformulações ao longo dos anos para substituição dos componentes ditos alergênicos, mas não acredito que seu aroma tenha sofrido alterações drásticas.

Poderia ficar horas falando bem dele, mas acho que seria redundante… Mitsouko é beleza e refinamento. Mas digo: se você está acostumada (o) a formulações modernas, frutadinhas, docinhas e gourmands (e quem não está? É a maior parte dos lançamentos comerciais…), ele vai te agredir, te fazer torcer o nariz e espirrar, vai te despertar certa aversão. Nesse momento, por favor, lembre-se que estará na frente de um dos maiores clássicos da perfumaria, um verdadeiro monumento. Solenemente, curve-se e preste reverência…

Notas de saída: cítricos, jasmim, bergamota, rosas.

Notas de coração: pêssego, lilás, jasmim, ylang-ylang, rosas.

Notas de fundo: especiarias, âmbar, canela, musgo-de-carvalho, vetiver.

Abre com jasmim e rosas fortemente aldeídicos, deixando logo o pêssego adornado pelo ylang-ylang sobressair e dominar a composição. As rosas sempre presentes tornam a composição mais feminina e dócil. As especiarias (sinto uma leve ardência: seria cardamomo? Cominho? Pimenta?) mais especificamente a canela são exóticas e ariscas! O musgo-de-carvalho que é parte obrigatória de um perfume chypre é profundo. O vetiver torna a base do perfume menos pesada, parece que faz as demais notas ‘levantarem’…

E no final das contas, com quem Mitsouko, heroína resignada e indecisa ficou? Não sei, confesso que não li o livro. Quanto ao Mitsouko perfume, espero que ele fique comigo, que não me falte…

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18 comentários sobre “Mitsouko, Guerlain

  1. Até eu fiquei com vontade de ter um. Guerlain é outro nível!!
    A propósito, Diana. Você viu a mensagem que te mandei no facebook sobre o Chocolovers?

    Beijos!

  2. Mitsouko me lembra um haiku da Susuki Masajo:
    usumono ya hito kanashimasu koi o shite

    Acho perfeito. Melhor que o Chypre de Francis Coty, que eu experimentei numa mostra e achei com cheiro de pedra, muito ríspido. Também acho que a concentração faz coisas, dizem que a parfum é uma coisa de outro mundo….

  3. Aff, essa resenha foi feita com a alma! Diana, vc deve ter um “orgasmo transcedental” toda vez que o usa. Impressionante, dá para imaginar a tua expressão só da maneira de vc escrever.
    Me rendi, parabéns sua diaba, mais um para a lista!

  4. Concordo com Diana em tudo! Era pra eu ter nascido há 3 séculos passados. Amo muito tudo o que era daquela época. Tenho Mitsouko EDP fixa umas 23 hs em mim, se pegar na mão e ir pra debaixo das unhas fica uns 5 dias exalando maravilhosamente.
    Na roupa ele fica uns 7 dias aqui no meu quarto, e de forma intensa! É tudo de lindo e necessário Mitsouko pra quem curte a linha dos Chypres.

    • Jernê, que prazer ter seu precioso comentário aqui!!! Tem razão, adoraria voltar um século para conhecer mais pérolas perfumísticas desses tempos áureos! Ele é demais, fixação absurda mesmo! E sim, ele é necessário, para todos amantes da boa perfumaria! Não vejo a hora de chegar meu L’Heure Bleue…

  5. Olá Diana, td bem?! Li sobre o Shalimar e, me deu uma vontade louca de comprar más, depois de ler sobre o Mitsouko, confesso que fiquei muito indecisa em qual comprar primeiro…gostaria que me desse uma ajuda pra resolver essa questão. Parabéns pelo seu blog! Sempre que quero uma informação mais detalhada sobre perfumes, faço uma visita à ele.

    • Olá Patricia! Olha, que sinuca de bico heim! Dois imensos ícones na escolha! O Mitsouko é belíssimo mas soa mais ‘datado’, tem um aspecto vintage inegável. O Shalimar é abaunilhado, polvoroso, acolhedor. Eu iria de Shalimar, em uma primeira tacada com os clássicos da Guerlain! Obrigada plea sua presença e feliz 2016!

      • Olá Diana, td bem? Comprei o Shalimar que está pra chegar. E como sou muito anciosa, já vou comprar o Mitsouko e o L’Heure Bleue também. Agradeço por sua valiosa opinião. Parabéns pelas resenhas, estou sempre aqui, dando uma lida e viajando, em suas ricas descrições sobre nossos amados cheirosos.

  6. Amei esse perfume!!!! Usei por quase trinta anos…e até hoje quando “lembro” seu doce aroma, me transporta a momentos incríveis, lindos sonhos!!!!
    Infelizmente deixei de usar pq seu aroma mudou … não e mais o mesmo…… tive frascos incríveis desde cristais e spray de bolsa….. deixou muitas saudades.

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