Perfumados fragmentos literários…

Vou tentar colocar com certa frequência aqui no blog partes de obras literárias onde, em meio a narrativa, o perfume ganha destaque. Para inaugurar tal tipo de postagem, começo com um fragmento do clássico “O Retrato de Dorian Grey”, do fabuloso Oscar Wilde:

“E ele, agora, portanto, estudaria perfumes e os segredos de sua manufatura, com o destilar de óleos e aromas intensos e o calcinar de resinas fragrantes do Oriente. Viu que não havia, na mente, estado de espírito sem contrapartida na vida sensual e lançou-se a descobrir as inter-relações verdadeiras, a imaginar o que havia no olíbano que nos deixava místicos; no âmbar, o que revolucionava nossas paixões; nas violetas, o que despertava a lembrança de romances idos; no almíscar, o que conturbava o cérebro; no champó, o que maculava a imaginação; a procurar, insistente, elaborar uma psicologia real dos perfumes e a avaliar as diversas influências das raízes de aroma adocicado, as flores poliníferas, aromatizadas, dos bálsamos aromáticos, das madeiras escuras, fragrantes, do espicanardo que causa náuseas, da hovenia que alucina os homens, e dos aloés que, se diz, são capazes de expelir da alma a melancolia”.

Segundo a biografia, o perfume favorito do Oscar Wilde era o Malmaison da Floris

Sua composição:

Notas de saída: cabnela, cravo (especiaria), limão almafi.

Notas de coração: cravo (flor), rosas, ylang-ylang.

Notas de fundo: cedro, almíscar, baunilha, patchouli.

Precisa dizer que eu queria muito?

White Soul, Ted Lapidus

Não é segredo que eu admiro a ousadia da marca Ted Lapidus. Não é segredo também que tal grife possui perfumes borderlines – quase sempre beiram o desastre – e explico o porque: são bons e diferenciados, porém intensos, fortes, de projeção espantosa, e se você não tomar cuidado vai matar meio mundo de enxaqueca. Quem conhece a marca sabe do que estou falando, coloca mais do que duas borrifadas do Creation e sai, vamos, sai… Duvido!

Voltando ao White Soul… perfume intenso da família oriental floral, criado em 2010. A embalagem alva é completamente dissonante do aroma. Entendo que quiseram “casar” com a embalagem preta da versão masculina, o Black Soul, mas não deu certo não… Seria melhor somente diferenciar a embalagem e deixar como Black Soul Femme.

Em linhas gerais White Soul é um perfume intenso, doce, com boas doses de especiarias, que volta e meia “puxa” para o masculino. Não possui baunilha na formulação, mas o resultado é quente e abaunilhado, deve ser a fava tonka e o heliotrópio…

Notas de saída: mandarina, tagete, ameixa, damasco

Notas de coração: flor-de-laranjeira, açafrão, heliotrópio

Notas de fundo: âmbar, fava-tonka, ládano (Cistus ladanifer), bezoin.

Não consigo saber se gosto ou não dele. A intensidade de suas notas me agrada, seu exotismo também. O que me deixa “em cima do muro” são essas notas especiadas que pendem ora para a doçura extrema, ora para o “picante” agridoce masculino.

Li em outro site comentários comparando-o ao Lalique Le Parfum, mas por favor, não repita isto, leia baixinho pra não provocar a ira dos Deuses do perfume…

Tenho apenas uma amostrinha do White Soul, já provei algumas vezes e sempre fico nessa dúvida entre gostar ou não dele. Quando a porção “menina” dele se faz presente, acho-o gostoso e aconchegante, quando a porção “menino” dele aparece, vem a incerteza… fica enjoado, com cheiro de desodorante que elas avançam. Mas também gosto desta brincadeira evolutiva dele, de mostrar uma face de cada vez, e de mudar e se reinventar a cada momento…

Quem sabe um dia a gente decide se tal relação é namoro ou amizade!

In Control Curious, Britney Spears

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Vamos confessar: comprei pelo vidro. Como resistir ao apelo do negro e do borrifador rosa (que infelizmente, não funciona mais)? E me surpreendi, o perfume é bom! Aliás, a linha da cantora pop (não faz meu estilo) Britney Spears é boa, em linhas gerais. Perfumes bem elaborados, frascos bonitos, agradam o grande público – exatamente como um perfume de celebridade deve ser.

O In Control Curious é doce, mas não é invasivo como o seu priminho, o Fantasy. É de doçura mais comedida, mais próxima e gulosa. Dá vontade de ficar perto!

Foi criado em 2006 por Claude Dir.

Notas de saída: notas frutais.

Notas de coração: fava tonka, baunilha, notas açucaradas (pirulito, jujuba, balas), orquídea.

Botas de fundo: musk e sândalo.

Potencial pra ser uma bomba doce insuportável ele tem. Mas foi feito de maneira a ser agradável e palatável, mérito do perfumista!

In Control Curious é bonito, docinho, comestível, sexy e gracioso ao mesmo tempo. Não tem nada de extraordinário, mas é um bom perfume! A saída é bem alcoólica, mas logo emergem as notas frutais e a baunilha cremosa e você se esquece do álcool.

Ah Britney, ensina pras outras celebs como de faz perfumes de apelo popular, porém bons, vai…

Nazareno Gabrielli, de Nazareno Gabrielli

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Extremamente floral, extremamente feminino! Li comentários em outros sites comparando-o ao Poeme ou ao infernal Gabriela Sabatini (não parece não, tranquilizem-se). Lembra um pouco o Poeme sim, mas tem lá suas diferenças.

Nazareno Gabrielli foi criado em 1996 e carrega toda a opulência e luxúria floral dos perfumes dos anos 80/90. As flores são melífluas e douradas, no auge de seu esplendor e maturação, prontas para serem visitadas por abelhas e demais insetos polinizadores…

Acabei comprando por acaso, depois de ler alguns elogios e ao me deparar com ele por um valor irrisório. Comprei no escuro e não me arrependi. Nazareno Gabrielli faz a linha do Joop Femme, do Boucheron, do Organza e do Poeme. Dourado, rico, sumarento, ultra feminino.

Incomoda os narizes mais sensíveis se usado sem parcimônia…

Notas: bergamota, rosa-da-Bulgária, ciclamen, tuberosa, ylang-ylang, cedro, musk, baunilha, benzoin, cravo (a flor), vetiver, gardênia, flor de laranjeira.

As notas que mais se destacam em minha opinião são a rosa, a gardênia e a tuberosa, porém, logo sentimos a presença cremosa da baunilha e do almíscar. O vetiver e o cravo emprestam tonalidades verdes e quase frescas durante a evolução do perfume. Em alguns momentos ainda sinto a flor de laranjeira, coisa rara de acontecer, pois essa nota é tão volátil… E o melhor: tal nota vai e volta de maneira deliciosa, não some após alguns segundos.

Nazareno Gabrielli é uma verdadeira preciosidade entre os orientais florais. Ele é vivo, multifacetado, brilhante. Como uma pedra preciosa deve ser!

Sândalo – Santalum album

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O uso documentado de Sândalo remonta 4000 anos na Índia, Egito, Grécia e Roma. Muitos templos e estruturas foram construídas a partir do sândalo. No Egito, as pessoas usavam em embalsamamento. Na Índia, as pessoas acreditavam que nunca cupins atacam sândalo. Por essa razão, que considerou ser um símbolo de vitalidade. Tem sido uma parte das tradições religiosas e espirituais da Índia, desde a pré-história e é utilizado na medicina natural desde a antiguidade. Cerca de 90% da produção mundial de óleo de sândalo é da Índia.

A árvore do sândalo (Santalum album) é originária da Índia e outras partes da Ásia e, atualmente, é plantada em outros lugares do mundo, em especial na América. A sua madeira é conhecida por seu entalhe para esculturas e porque dela se obtém óleos voláteis que são usados em perfumaria. O sândalo originário da Índia é a que produz a melhor madeira e os melhores óleos aromatizantes.

As espécies que são cultivadas no resto do mundo não são tão próximas a espécie hindu, porém também recebem o nome de sândalos e sua madeira é também aromática.

Na Índia, o sândalo é uma árvore sagrada, e o governo a tem declarado como propriedade nacional para preservá-la da depredação ao qual tem sido exposta. Só é permitido o seu corte quando o exemplar possuir mais de trinta anos, momento em que naturalmente começa a morrer. Um tronco do sândalo demora 25 anos para adquirir uma espessura de 6 cm.

O cerne é marrom-amarelado e fortemente perfumado. As folhas são de 3,5 a 4 cm de comprimento. A madeira de sândalo cresce quase exclusivamente nas florestas de Karnataka, seguido de Tamil Nadu, Kerala e Andhra Pradesh (Índia), Timor ilhas da Indonésia. O óleo de melhor qualidade vem da província indiana de Mysore e Tamil Nadu.

A fragrância de sândalo tem propriedades relaxantes e também reduz o estresse e promove um sono reparador. Ele tem a fama de ser um afrodisíaco. Óleo de sândalo oferece perfumes com uma nota marcante de base amadeirada. Quando utilizado em proporções menores em um perfume, é um excelente fixador para melhorar as outras fragrâncias.

Utilizado na medicina chinesa e da ciência de cura indiana conhecida como Ayurveda. É comumente usado para cosméticos e cuidados com a pele, sendo útil para a pele seca, erupções e acne. É apropriado para todos os tipos de pele e é não tóxico.

O sândalo é usado de várias maneiras nas tradições espirituais da Índia. É considerado benéfico para a meditação e para acalmar e concentrar a mente humana. Ela é usada como incenso em templos ou em altares pessoais para nos lembrar dos reinos dos céus perfumadas. Quando era mais abundante, a madeira foi usada para construir partes de têmporas. Gotas de óleos de sândalo podem ser aplicadas na testa e friccionada entre as sobrancelhas antes de rituais iniciais. Desta forma, ajuda a definir o cenário e preparar a mente para as práticas.