Muito se fala na família olfativa ‘chypre’, mas percebo que algumas pessoas têm dúvidas quanto a tal termo: como é? De onde vem tal termo? O que esperar de tais fragrâncias? Bom, vamos a história dessa família olfativa…
Teoricamente tudo começou com o perfume ‘Chypre’ criado por François Coty em 1917. Chypre é o nome da ilha de Chipre em francês, onde a deusa da beleza e do amor, Vênus, nasceu.
François Coty inspirou-se nesse cenário par criar tal perfume, que acabou por designar toda uma família olfativa. Também foi nessa ilha que a fábrica mais antiga perfume do mundo foi descoberta, em Pyrgos Mavrorachi, cujo nome significa “fortaleza na encosta negra” em grego, e data de 2000 aC, bem antes de os análogos egípcios (
http://pyrgos-mavroraki.eu/pyrgos-mavroraki_000015.htm).
Mas aconteceram coisas antes… Durante o Iluminismo, graças ao comércio vigoroso dos cipriotas empreendedores descobriu-se na região um produto feminino com um perfume adicionado: o famoso pó ‘Cipria’. A moda das perucas empoadas na Europa Ocidental no século 17 fez de Cipria um dos produtos cosméticos mais usados.
François Coty não foi o primeiro a associar o nome Chypre com um perfume particular. Guerlain Chypre de Paris precedido por oito anos, em 1909. Chypre d’Orsay foi o próximo a ser introduzido em 1912. Nós só podemos atribuir esses nomes ao “Cipria” que teria inspirado e influenciado essas fragrâncias.
Na perfumaria moderna a estrutura básica do perfume chypre é uma harmonia entre os três principais ingredientes: bergamota (uma fruta cítrica que cresce em todo o Mediterrâneo) – musgo de carvalho (líquen que cresce em carvalhos principalmente nos Balcãs) – labdanum (a resina de Esteva ladaniferus ou esteva, uma planta que cresce na bacia do Mediterrâneo, especialmente em Creta e Chipre, que era tradicionalmente consumido pelas cabras que pastavam no mato).
A tensão entre a nota cítrica fresca e pungente, odor de terra de musgo de carvalho e de labdanum cria um efeito estético decididamente distante de qualquer coisa comestível. Exatamente porque cheira a ‘perfume’, projeta uma imagem de luxo, sofisticação, status. Remete a beleza e feminilidade da Vênus nascida de uma concha, nas praias de tal ilha…
Muitas vezes encontramos nos chypres patchouli e outras notas amadeiradas ou essências animálicas, portanto tais notas não são levadas em conta para a ‘classificação’ de uma fragrância como chypre, e sim a tríade bergamota/musgo-de-carvalho/labdanum.
É comum confundi-los com fragrâncias orientais amadeiradas ou com florais amadeirados verdes.
A família chypre ainda pode ser subdividida e classificada em:
Chypre Verde: com notas verdes de gramíneas, ervas e flores como o jacinto (Diorella, Chanel Cristalle, Shiseido Koto, E.Lauder Aliage, Jean Couturier, Coriandre, Balenciaga Cialenga).
Chypre Amadeirado: com notas de patchouli, vetiver, agulhas de (Niki de Saint Phalle, Halston, La Perla, Aromatics Elixir).
Chypre frutado: notas frutas maduras, como ameixa ou (Guerlain Mitsouko, Rochas Femme, Diorama, Nina Ricci Deci Dela, Yves Saint Laurent Champagne / Yvresse, Amouage Jubilation 25, Balenciaga Quadrilha, Lutens Chypre Rouge).
Chypre floral: como diz o nome, com notas florais (Ungaro Diva, Zibeline por Weil, Antilope por Weil, Charlie Revlon, Agent Provocateur Edp,).
Chypre animálico: com notas derivadas de substâncias extraídas de animais, como a civeta (Miss Dior, Montana Parfum de Peau , Balmain Jolie Madame, Paloma Picasso).
Ainda existem outras subdivisões, como o Chypre Couro, o Chypre Aromático, o Chypre Aldeídico, Chypre Cítrico…
Anos se passaram e perfumes chypres saíram de moda na década de 1990. Porém, houve um renovado interesse por eles após Narciso for Her Eau de Toilette ser introduzido no mercado em 2004 e se tornado um moderno clássico que influenciou todas as outras casas.
A história da família olfativa chypre se confunde com a história da própria perfumaria. É mítica, bem como tantas fragrâncias que recebem seu nome!