Perfumes e Literatura – Sarau dos Blogs Perfumados!

Sempre disse que o mundo seria melhor se todos tivessem mais perfumes e mais livros! E para abrilhantar o Sarau dos Blogs Perfumados de Abril, chamamos aqui dois célebres amigos, José de Alencar e Oscar Wilde! Na verdade já recebemos a visita dos ilustres na série “Perfumados Fragmentos Literários”, quem acompanha o blog conhece!

Chamei Clarice, mas ela tinha compromisso e não pode estar conosco! Mas deixou links dos posts onde já apareceu pra não ficarmos com tanta saudade!

https://aloucadosperfumes.com/2013/01/16/perfumados-fragmentos-literarios-parte-iii-clarice-lispector/

https://aloucadosperfumes.com/2014/05/05/o-perfume-na-ficcao-de-clarice-lispector-de-juscilandia-oliveira-alves-campos/

Vamos começar nosso Sarau com o criador de Dorian Grey?

Trecho do livro “O Retrato de Dorian Grey”, de Oscar Wilde.

“E ele, agora, portanto, estudaria perfumes e os segredos de sua manufatura, com o destilar de óleos e aromas intensos e o calcinar de resinas fragrantes do Oriente. Viu que não havia, na mente, estado de espírito sem contrapartida na vida sensual e lançou-se a descobrir as inter-relações verdadeiras, a imaginar o que havia no olíbano que nos deixava místicos; no âmbar, o que revolucionava nossas paixões; nas violetas, o que despertava a lembrança de romances idos; no almíscar, o que conturbava o cérebro; no champó, o que maculava a imaginação; a procurar, insistente, elaborar uma psicologia real dos perfumes e a avaliar as diversas influências das raízes de aroma adocicado, as flores poliníferas, aromatizadas, dos bálsamos aromáticos, das madeiras escuras, fragrantes, do espicanardo que causa náuseas, da hovenia que alucina os homens, e dos aloés que, se diz, são capazes de expelir da alma a melancolia”.

E agora, com vocês, José de Alencar!

Trecho do livro “Cinco Minutos”, de José de Alencar. Foi publicado em 1865 em forma de folhetim, pelo jornal Diário do Rio de Janeiro.
“Nesta marcha, o meu espirito em alguns instantes tinha chegado a uma convicção inabalável sobre a fealdade de minha vizinha.
Para adquirir a certeza renovei o exame que tentara a princípio: porém, ainda desta vez, foi baldado; estava tão bem envolvida no seu mantelete e no seu véu, que nem um traço do rosto traía o seu incógnito.
Mais uma prova! Uma mulher bonita deixa-se admirar e não se esconde como uma pérola dentro da sua ostra.
Decididamente era feia, enormemente feia!
Nisto ela fez um movimento, entreabrindo o seu mantelete, e um bafejo suave de aroma de sândalo exalou-se.
Aspirei voluptuosamente essa onda de perfume, que se infiltrou em minha alma como um eflúvio celeste.
Não se admire, minha prima; tenho uma teoria a respeito dos perfumes.
A mulher é uma flor que se estuda, como a flor do campo, pelas suas cores, pelas suas folhas e sobretudo pelo seu perfume.
Dada a cor predileta de uma mulher desconhecida, o seu modo de trajar e o seu perfume favorito, vou descobrir com a mesma exatidão de um problema algébrico se ela é bonita ou feia.
De todos estes indícios, porém, o mais seguro é o perfume; e isto por um segredo da natureza, por uma lei misteriosa da criação, que não sei explicar.
Por que é que Deus deu o aroma mais delicado à rosa, ao heliotrópio, à violeta, ao jasmim, e não a essas flores sem graça e sem beleza, que só servem para realçar as suas irmãs?
É decerto por esta mesma razão que Deus só dá à mulher linda esse tato delicado e sutil, esse gosto apurado, que sabe distinguir o aroma mais perfeito…
Já vê, minha prima, porque esse odor de sândalo foi para mim como uma revelação.
Só uma mulher distinta, uma mulher de sentimento, sabe compreender toda a poesia desse perfume oriental, desse hat-chiss do olfato, que nos embala nos sonhos brilhantes das Mil e uma Noites, que nos fala da Índia, da China, da Pérsia, dos esplendores da Ásia e dos mistérios do berço do sol.
O sândalo é o perfume das odaliscas de Istambul e das huris do profeta; como as borboletas que se alimentam de mel, a mulher do Oriente vive com as gotas dessa essência divina.
Seu berço é de sândalo; seus colares, suas pulseiras, o seu leque, são de sândalo; e, quando a morte vem quebrar o fio dessa existência feliz, é ainda em uma urna de sândalo que o amor guarda as suas cinzas queridas.
Tudo isto me passou pelo pensamento como um sonho, enquanto eu aspirava ardentemente essa exalação fascinadora, que foi a pouco e pouco desvanecendo-se.
Era bela!
Tinha toda a certeza; desta vez era uma convicção profunda e inabalável.
Com efeito, uma mulher de distinção, uma mulher de alma elevada, se fosse feia, não dava sua mão a beijar a um homem que podia repeli-la quando a conhecesse; não se expunha ao escárnio e ao desprezo.
Era bela!”
Links dos posts originais:

https://aloucadosperfumes.com/2013/03/21/perfumados-fragmentos-literarios-parte-iv-jose-de-alencar-2/

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11 comentários sobre “Perfumes e Literatura – Sarau dos Blogs Perfumados!

  1. Tive uma pequena sincope com esse trecho de José de Alencar, não conhecia!!!!!!!!
    “A mulher é uma flor que se estuda, como a flor do campo, pelas suas cores, pelas suas folhas e sobretudo pelo seu perfume.” ah, vou levar pra vida! Me emocionei e me senti linda :3

    • De rara beleza o trecho do Alencar… Mas ele tem grande sensibilidade, lembro que faz tempo li Lucíola e fiquei encantada com sua prosa sobre a personagem. E recentemente descobri que tal livro faz parte da série de “Perfis de Mulher”, romances em que estuda caracteres femininos, torturados por contradições e antagonismo psicológicos, fazem parte da série também: Diva (1864) e Senhora (1875).”

  2. você tem toda razão Luciana Marques, eu também não conhecia essa poesia a mulher, tão diferente dos dias atuais, em que, o homem não está nem aí pelo perfume que a mulher está usando, até porque a culpa é nossa na maior parte do tempo, nós mulheres não inspiramos mais o homem a admirar uma mulher como José de Alencar, lógico que existem exceções de homens.

  3. Ah Diana, estamos com a literatura brasileira né? Lindos fragmentos, acredito que os olhares e os perfumes eram as maiores armas dessa sedução furtiva, não declarada… pequenos códigos que tinham um significado imenso, cada flor presenteada passava uma mensagem poderosa.
    Beijos!!

  4. É sempre muito bom relembrar nossa obra literária.
    Só discordo em uma coisa: há feias que também teem bom gosto e são muito perfumadas, rsrsrs…. diria que, possuem outras belezas que perpassam além do físico. Assim como um perfume; seu verdadeiro aroma está na essência!
    Parabéns pelo post.

  5. Amei reencontrar o meu amigo Zé aqui. Ele é o cara. Cinco Minutos, A Viuvinha, Lucíola, Senhora, essa galera esteve comigo na escola e tá comigo até hoje na vida. Ele só não ganha do Machadão e do outro Zé, o Eça. Clarice não conta. Ela é hors concours. rs

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