Livro “202 Perfumes Para Provar Antes de Morrer” (masculinos), por Daniel Barros

Perfumes e Natal

Minha lista de presentes preferida:

De aniversário? Perfume.

De Dia dos Namorados? Perfume.

De Páscoa? Perfume.

De Natal não poderia ser diferente…

As vezes, mesmo sem querer, acabamos entrando no clima natalino de consumo e nos deixando levar pelos apelos de campanhas publicitárias envolventes da época…

Quer exemplos?

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Agora vai, diz que você não solta ao menos um ‘ownnnn’ frente a essa bonequinha ou ao amoroso olhar entre pai e filha?

Mas não é coisa moderna não, viu? A publicidade sempre se aproveitou de datas como o Natal para alavancar suas vendas, vamos ver?

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E os frascos natalinos kitsch da Avon? Só eu queria todos? Imagina isso embaixo da árvore de Natal numa bandeja, gente!!!

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Veja mais sobre o assunto aqui: http://thevintageperfumevault.blogspot.com.br/2010/12/merry-christmas-from-vault-vintage.html

Boise Vanille, Montale

Mais uma das amostras chiquetosas que ganhei da amiga Andréa Faria!

Mesmo sabendo ser um Montale, abri o flaconete preconceituosa e sem expectativas, esperando mais uma baunilha gulosa e culinária, a lá Dr. Oetker. Ledo engano… assim que passei o perfume na pele, me senti dentro de uma cenário antigo e de fantasia, parecia que um boticário idoso quase místico (que vive em uma cabana de madeira no meio da floresta) pincelava uma rara e mágica tintura de baunilha e outras plantas exóticas sobre minha pele. E embora Boise Vanille evolua bem na pele, o tempo todo senti esse apelo medicinal, tônico, viscoso.

Depois de algum tempo surgem notas mais ‘esverdeadas’, frescas até e picantes. Fiquei pensando se eram loucas interpretações de patchouli ou vetiver… E aí aparece a lavanda mesclada a cítricos e a outra nota que não sei nomear, mas já senti muito em colônias masculinas.

Daí chega a íris de mãos dadas com a fava-tonka e elas se tornam a atração principal por um bom tempo. Polvoroso o boudoir da íris junto com o toque licoroso da tonka, cortejadas pela lavanda citrina!

Bonito de ver, esse galanteio!

E em meio a tudo isso, lá no fundo, servindo de cenário, tem a tintura de baunilha. É escura, aveludada, provocante, mas não é doce ou enjoativa.

E digo mais, Boise Vanille é o perfume mais andrógino que já senti! É acima de qualquer definição de gênero ou opção impostas seja pela sociedade ou pelo mercado. Ele nem entende a necessidade tão humana de definir, de nomear ou separar o masculino e o feminino…

Notas olfativas: limão, bergamota, lavanda, gerânio, cedro, íris, patchouli, fava-tonka, baunilha, pimenta. Criação de Pierre Montale.

Índice

Imagem retirada daqui: http://www.flickr.com/photos/8741914@N07/7517111592

Ambre Sublime, Sthendal

Comprei esse bonito na Argentina, sob temperatura de 9°C e chuva torrencial. E aí que a percepção dele em terras tupiniquins acabou equivocada em virtude de nossas altas senegalesas temperaturas. Tive que esperar dias mais frescos para usar o Ambre Sublime sem sufocar a vizinhança…

Foi lançado em 2010 pela casa francesa Sthendal e o nariz responsável por ele é Emilie Bevierre Coppermann.

Ambre Sublime (leia sobre o âmbar na perfumaria aqui) tem ‘fase’ picante e invasiva, ‘fase’ cremosa, ‘fase’ quase gustativa, daquelas que desperta o desejo de lamber e mordiscar. E é totalmente compartilhável, viu?

Começa com notas agressivas, daquelas vistas em maior volume na perfumaria dita ‘masculina’, aquela coisa madeira-erva-flor. Seu coração é uma mistura de flores exóticas, especiarias cálidas e madeiras mornas e cremosas. Suas notas de base são tentadoras, é tudo balsâmico, dourado, doce. Flerta com o achocolatado e dá vontade de não desgrudar o nariz da pele que exala tal perfume…

Perfume ‘que ladra mas não morde’, ameaça ser agressivo no primeiro contato, mas logo se mostra lânguido, sedutor e até mesmo refinado!

Notas de saída: bergamota, maçã, neróli, ylang-ylang.

Notas de coração: rosa, canela, cardamomo, madeira cashmere.

Notas de base: benjoim, bálsamo tolu, ládano, sândalo, patchouli, baunilha, fava tonka e almíscar.*

Delicioso âmbar, de fazer o coração dos apaixonados pelo acorde disparar,,,

 

Fonte da informação sobre notas olfativas: http://www.mimifroufrou.com/scentedsalamander/2010/12/stendhal_ambre_sublime_2010_ne.html

My Insolence, Guerlain

Nascido em 2007 pelas mãos de Christophe Raynaud e Sylvaine Delacourte, tal filhote do Insolence me frustrou. É juvenil e quase indiferenciado, sem personalidade, tentando se encaixar na mesma prateleira onde já estão muitos perfumes cor-de-rosa.

Embora carregue algo do Guerlinade característico da marca, ele é um floral frutal adocicadinho comum: começa com frutas vermelhas docinhas-azedinhas, tem coração floral polvoroso, me fez pensar em íris e marzipã. Termina com notas de fava-tonka e baunilha, ainda envoltas em nuvem amendoada e polvilhadas com delicado açúcar de confeiteiro.

Tem discreta tonalidade gourmand, dá uma breve passada na confeitaria e sai de lá com algumas balinhas escondidas no bolso, mas não se deixa perder no mundo de gulodices, não!

É desses: flerta com tudo, não se compromete com nada! Nem com as flores, nem com as frutas, nem com os doces… talvez aí esteja a beleza dele…

Notas de saída: framboesa, cítricos.

Notas de coração: jasmim, flor de amêndoa.

Notas de fundo: baunilha, patchouli, fava-tonka.

É gostoso sim, mas não tem nada de mais. Se a intenção foi agradar multidões, aposto que conseguiu!

Dalal, Al-Rehab

E daí que a Carla comparou o Dalal com o Botrytis… Eu, que já era curiosa por ele tive um faniquito. O problema é que eu queria a versão em spray, e não o óleo que é fartamente disponível no Ebay…  Enfim, comprei o bonito aqui por míseros 6 dólares.

Direto ao ponto, Dalal é pura delícia, dá vontade de lamber! Tem caramelo, mel, baunilha, frutas cristalizadas com aquela casquinha pecaminosa de açúcar…

‘Inicia os trabalhos’ na pele com uma explosão de caramelo de bala toffee e casquinha de laranja (cristalizada, tudo muito docinho…). Aos poucos deixa escapar um fiozinho de mel que torna o perfume mais licoroso, mais sexy. Como explicar que algo tão doce quanto o mel deixa outra coisa tão doce como o caramelo mais branda, esfumaçada e adulta? Deu pra entender?

Sinto também frutas secas: das transparentes e das cobertas de açúcar, das murchinhas e das inchadinhas… tem um monte delas nadando na calda morna de caramelo e mel!

E tem a baunilha né? Mas olha, ela é coadjuvante do caramelo. Tá ali só para aumentar os níveis de glicose.

Sabe o que me trás a memória? Delicioso ninho de nozes da confeitaria árabe regado com mel diluído em água de laranjeira!

Ah, esses perfumes árabes e seus encantos…

Mestre Yoda, até tu?

A arte de Gregoire Guillemin colocou vários personagens da cultura pop (super heróis, personagens de desenhos, da Disney…) em situações cotidianas! São hábitos de higiene, alimentares, pequenas vaidades a até mesmo intimidades de tais personagens! Quem diria que um Smurf tomaria Viagra, ou que Ronald McDonald dá aquela ‘limpada no salão’? Quer ver a Mulher Maravilha sensualizando nas selfies ou Alice depilando as axilas? Gente como a gente, eles fazem tudo isso!

Mas o que mais me atraiu foi o Mestre Yoda deliciando-se com um Chanel N°5! Como resistir, né Yoda?

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Visite mais obras aqui: http://www.greg-guillemin.com/

http://www.greg-guillemin.com/85780/1012746/gallery/the-secret-life-of-heroes

Musgo de Carvalho, Evernia prunastri

Evernia prunastri, é uma espécie de líquen, um fungo encontrado em florestas temperadas em todo o hemisfério norte. Como o próprio nome sugere, o musgo de carvalho cresce geralmente nos galhos e troncos de árvores de carvalho, mesmo que ele também pode ser encontrado em outras árvores de folha caducas e coníferas. Este líquen é espesso e seu formato lembra um pouco a forma de chifres de veado. Apresenta variações de cor, pode ser verde-menta, verde ou quase branco quando seco, ou verde-oliva e até amarelado quando molhado.

A extração dos líquens ocorre principalmente no Centro-Sul da Europa. Existem diversas variedades de líquens usados por suas qualidades aromáticas; em sua maioria, eles vêm do cedro (Marrocos), dos pinheiros e dos abetos (França). Os extratos não são tão refinados quanto o verdadeiro musgo de carvalho, porém eles são geralmente associados a ele.

O Absuloto pode ser obtido por extração com solvente ou destilação a vácuo. O obtido por extração com solvente é verde escuro ou até mesmo na cor marrom e tem um cheiro natural, forte, terramusgo com um leve tom de couro. O processo de destilação a vácuo um material aromático amarelo ou verde pálido com um aroma de terra e nuances amadeiradas.

É parte essencial de fragrâncias chipre e fragrâncias fougère.

O musgo de carvalho pode causar alergias dermatológicas em algumas pessoas, e segundo o IFRA (órgão que regulamenta as diretrizes para o uso seguro de produtos químicos aromáticos e óleos essenciais em perfumes), deve ser usado com extrema precaução. Regulamentos da IFRA indicam que os extratos de musgo de carvalho obtidos a partir de Evernia prunastri não devem ser usados em quantidade superior a 0,1%. Se a composição possuir outros extratos derivados de musgos de outras espécies, a soma das quantidades também não podem ultrapassar os 0,1%.

Por ser praticamente impossível compor um chypre sem o musgo, perfumistas tentam encontrar um novo extrato que seria olfativamente perto do aroma original, e ainda cumprir os regulamentos da IFRA. Seguindo as novas orientações, muitas casas de perfumaria têm reformulado seus perfumes épicas: Mitsouko e Parure (Guerlain), a exemplo. Porém, com uma pequena ajuda da ciência moderna, Thierry Wasser, famoso perfumista da Guerlain, encontrou sua maneira de preservar o aroma da versão original e evitar alterar a formulação drasticamente. A Guerlain agora usa musgo de carvalho que não tem a molécula específica proibida pelas normas IFRAAlguns outros perfumistas têm substituído musgo de carvalho, por patchouli e vetiver, enquanto outros usam materiais sintéticos que reproduzem o cheiro do musgo. 
É rica a mitologia em torno do Carvalho: muitas tradições em todo o mundo consideram o carvalho como uma árvore sagrada devido à sua robustez e majestosidade. Considerava-se que havia uma forte relação de poder com os céus pelo fato dos carvalhos atraírem os raios e, por esse motivo, controlarem os trovões e as tempestades. Na Idade Média, considerava-se que o carvalho tinha uma influência mágica sobre o tempo e a madeira de carvalho fazia parte das poções da feitiçaria que provocavam trovoadas e tempestades.
Era a árvore de Zeus, na Grécia, de Júpiter, em Roma, e de vários outros deuses do Norte e do Leste da Europa. O bosque da deusa Diana estava cheio de carvalhos que eram também o símbolo da deusa. As coroas que homenageavam os soldados romanos pelos seus feitos nas batalhas eram feitas de folhas de carvalho e bolotas.
O carvalho tem uma grande relevância na simbologia bíblica: Abraão recebeu as revelações de Deus junto a um carvalho, tanto em Hébron como em Siquém. O Antigo Testamento mencionava também que a morada de Abraão em Hebrón era junto a um frondoso carvalho.
Ulisses, na Odisseia, consulta o carvalho de Zeus no seu regresso a casa. Plínio, o Velho, mencionou os druidas celtas relacionando o seu nome com o nome celta de carvalho, duir, e por isso passaram a ser conhecidos posteriormente como “homens de carvalho”. Esta comparação devia-se ao fato dos druidas serem considerados homens de sabedoria e força, qualidades também atribuídas ao carvalho. Os celtas assumiram o carvalho como uma divindade e um símbolo de acolhimento ou lar e também uma espécie de templo, dado o seu forte tronco e os seus ramos e folhagens espessos. Por esta razão, na Irlanda, as igrejas eram chamadas de dairthech, “casas de carvalho”.

Sortilege, Long Lost Perfume

A marca Long Lost Perfume, de Irma Shorell, recria perfumes famosos no passado, tais como My Sin de Lanvin, Crepe de Chine de Millot, Sortilege de Le Galion etc.

A Long Lost afirma utilizar as fórmulas originais destes perfumes, no caso do Sortilege, criação do nariz Paul Vacher, em 1937. A questão é que a marca original do perfume, a Le Galion, que nos anos 80 encerrou suas atividades, retornou em 2014 ao mercado com seus grandes sucessos do passado, inclusive o Sortilege.

Bom, especulações sobre o futuro da recriação da Long Lost Perfume a parte, conto que nunca tive a oportunidade de sentir o Sortilege de 2014 e muito menos o antigo de 1937…

Adquiri no Ebay uma miniatura de 15ml da versão Long Lost Perfume, pois tenho grande curiosidade (e amor) por perfumes de épocas distantes.

Ele é datado, daqueles que chama-se por aí de ‘perfume de avó’. Lembra algo do Chanel °5, algo do First. E tem muito do Mistouko, sem o aspecto característico do guerlinade. Tem um ‘quê’ chypre, antiquado e delicioso, me senti nos anos 40!

Floral aldeídico potente, possui um bouquet floral intenso e complexo, eu não consegui identificar muitas notas na saída e no coração. Senti rosas, ylang-ylang, jacinto, todos na forma rococó de ser…

As notas de fundo são incensadas, percebe-se com clareza o opoponax, seguido do verde-terroso do vetiver e do verde-amarguento-úmido do musgo de carvalho. Depois de umas 4 horas aparecem notas sutilmente adocicadas, coisa de âmbar, tonka e sândalo.

Sortilege, em todas as etapas de sua evolução, apresenta aldeídos e não deixa, nem por um segundo, de ser datado, ‘vintage’.

Notas de saída: flor-de-laranjeira, pêssego, bergamota, aldeídos.

Notas de coração: jasmim, ylang-ylang, íris, rosa, lírio, violeta, lilás.

Notas de fundo: vetiver, sândalo, almíscar, opoponax, musgo-de-carvalho, fava tonka, baunilha, estoraque, âmbar.

Aos amantes da antiga perfumaria, um deleite!

Abaixo, anúncios antigos do Sortilege da Le Galion…

   

   


			

Poudre de Riz, Huitieme Art Collection, Parfumerie Générale

Ganhei da amiga Andréa Faria um monte de amostras luxuosas! Perfumes para sonhar, um melhor do que o outro! Hoje vou falar do Poudre de Riz, (coleção Huitieme Art) da Parfumerie Générale.

Deuses, que íris! Nunca senti tão viva! Parecia que estava ali, na minha frente, porções de precioso Absoluto de Íris (que nunca vi, nunca senti, mas imagino que seja assim)! Depois de algum tempo surge algo amendoado, adocicado e exótico. Lembrei de marzipan…

Encontrei também flores de pétalas acetinadas e cerosas, seria tiaré? Ou seriam jasmins e gardênias elegantes, que somente passaram na festa para cumprimentar a anfitriã Iris?

Depois de 2 horas na pele, senti algo que me lembrou vagamente do Kenzo Amour, acho que é o efeito verde-terroso-adocicado do arroz. E eu, que achei uma gotinha de escuro patchouli em Poudre de Riz descobri que era arroz… Leite de arroz, é isso!

As notas de fundo são balsâmicas, resinosas e adocicadas. Tem incenso, madeira e seiva sagradas misturada a um mundano caramelo-menino travesso, pouco doce, desses que já encontramos em outras criações classificadas como masculinas.

E o mais incrível, mesmo como outras notas olfativas marcantes e que nos prendem a atenção, a íris continua soberana! Todo o resto gira ao seu redor e lhe empresta nuances!

Criado em 2012 por Pierre Guillaume, suas notas olfativas são: tiaré, leite-de-coco, baunilha, arroz, xarope maple, caramelo, sândalo, íris, cedro, tonka, benzoim, bálsamo tolu, rosa damascena.

Poudre de Riz, eu sei que vou te amar, por toda minha vida vou te amar…