Truth or Dare, Madonna,

“Eu sempre fui obcecada por perfumes e durante anos quis criar algo pessoal, que era uma expressão de mim, mas que outras pessoas poderiam se relacionar bem . Algo clássico e atemporal e ainda moderno. Minha memória mais antiga da minha mãe é o seu perfume. Eu carrego comigo em todos os lugares. Ela sempre cheirava a gardênias e tuberosa, uma mistura intoxicante, feminina e misteriosa. Queria recriar esse aroma, mas com algo fresco e novo sobre isso também. Algo honesto e ainda ousado – daí o nome Truth or Dare”.

E assim disse Madonna sobre seu perfume. Conheci no Encontro Perfumado da APP e desde então ele não saía da minha cabeça! Lembra o Fracas suavizado, com toques de modernidade (aliás, um dos perfumes preferidos da Madonna, fica bem clara a fonte de inspiração para Truth or Dare).

O frasco é bonito e para mim, cheio de simbologia: a começar pelo nome, ‘Truth or Dare’ também é o nome do polêmico filme que no Brasil recebeu o nome de ‘Na Cama com Madonna’. Depois o ‘M’ com a cruz sobreposta, fazendo referência aquela fase da Madonna onde tudo que ela fazia carregava alguma provocação religiosa. A cor branca, a tampa dourada. Rebites. Vou longe agora: lembra tanto uma coroa quanto a roupa de religiosos católicos em dia de festa. Os rebites trazem algo do universo S&M para a brincadeira, contrastando com o branco angelical e limpo. Espera: um frasco branco, angélico e limpo para conter um perfume com tuberosas, jasmins e gardênias ao quilos? Coisas da Madonna mesmo, ‘Like a Virgin’… E ainda, em outros momentos o frasco me lembra mesmo é de uma urna funerária, vulgo caixão… Juro que estou sóbria. Juro.

Truth or Dare foi criado em 2012 e o perfumista Stephen Nilsen assinou a criação.

Sua abertura é uma explosão de flores brancas de todos os tipos: esfuziantes, sedutoras, tóxicas, meigas, gentis. Todas juntas. E que coisa mais linda! São tão vívidas, tão vibrantes, tão macias!

Quando a força de tais flores diminui, aparecem notas macias, cálidas, confortantes. Um leve toque de incenso e o resíduo ceroso, animálico e viciante das flores brancas, principalmente da tuberosa e do jasmim. Nada, nadinha de baunilha doce, enjoadinha e culinária.

Olha, o Fracas é hors concours, mas Truth or Dare também faz bonito e segue a mesma linha olfativa. Foge do atual padrão dos ‘perfumes de celebridades’, é arriscado! No Brasil é comercializado pela Jequiti.

Notas de saída: tuberosa (a tóxica), gardênia (a sedutora), neróli (a gentil).

Notas de coração: lírio (o meigo), jasmim (o esfuziante), benzoim.

Notas de fundo: baunilha, âmbar, almíscar.

Lady Vengeance, Juliette has a Gun

O nome ‘Juliette has a Gun’ invariavelmente me faz lembrar de outra moça armada. Falo o nome da marca e imediatamente começa a tocar na minha cabeça a música ‘Janie’s Got a Gun’, do Aerosmith… Sei que a situação de cada uma é diferente, Juliette está mais para o fetiche e para a dualidade dominadora-dominada. Enfim, não vou me prolongar nisso, porque a viagem não terá fim…
Ganhei da querida Barbarella uma amostra do Lady Vengeance e achei maravilhoso! Rosas ora inocentes, ora imperativas. Com tonalidades atalcadas e picantes. Rosa trajando couro!
Foi criado pelo festejado Francis Kurkdjian em 2006.
Notas de saída: bergamota, lavanda.
Notas de coração: rosa-da-Bulgária, rosa damascena, molécula Iso E Super, patchouli.
Notas de fundo: ambroxan, baunilha, almíscar branco.
Lady Vengeance é tapa com luva de pelica! É vingança doce, morna, quase carinhosa! Não ache que a profusão de rosas o torna inocente: as rosas são disfarçadas, com sua beleza e aroma distraem e os espinhos passam ‘batido’…
Não há na listagem de notas olfativas nada referente ao couro, mas sinto sim um toque de couro. As rosas são as grandes estrelas, polvilhadas pelo patchouli terreno e picante, aquecidas pelo tal ambroxan – que remete ao amber gris. As notas amadeiradas soam secas, quase masculinas. A baunilha é tão discreta! Aparece as vezes e empresta momentos de doçura ao perfume. O almíscar branco dá a sensação de conforto e reconhecimento.
No fim, como eu vejo o perfume: uma rosa ‘com tudo planejado’, cheia de subterfúgios! Seduz com a leveza e inocência da lavanda, mostra pétalas macias e tenras. Quando já estamos convencidos, mostra sua outra face: couro, patchouli, âmbar cinzento… E ainda arranja espaço para seduzir a vítima já totalmente entregue com o doce sutil de sua baunilha e a androginia das notas amadeiradas…
Cheia de ‘tarantinismos’, essa Lady…
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Aldeídos: o que são?

Um grande grupo de componentes de origem orgânica reproduzidos em laboratório. Mais especificamente: um aldeído é um composto orgânico que contém um grupo carbonilo terminal. Esse grupo funcional, chamado um grupo aldeído, consiste de um átomo de carbono ligado a um átomo de hidrogênio com uma ligação covalente simples e um átomo de oxigênio com uma ligação dupla. Assim, a fórmula química por um grupo funcional aldeído é – CH = O, e a fórmula geral de um aldeído R é – CH = O. o grupo aldeído é por vezes chamado de grupo formilo ou metanoil. Outras classes de compostos orgânicos que contêm grupos carbonilo incluem cetonas e ácidos carboxílicos.

Química orgânica, lembra? Nem eu…

Geralmente possuem cheiro agradável e são frequentemente usados ​​em perfumes e também em aromas alimentares. O odor dos aldeídos que têm baixo peso molecular e é irritante, porém, à medida que o número de carbonos aumenta, torna-se mais agradável. Os aldeídos de maior peso molecular, que possuem de 8 a 12 átomos de carbono, são muito utilizados na indústria de cosméticos na fabricação de perfumes sintéticos.

É obtido através da oxidação de álcoois primários em meio ácido ou de sua desidrogenação catalítica na forma de vapor em presença de metais como o cobre, a prata e a platina, ou da oxidação catalítica de vapores de álcoois por oxigênio do ar, igualmente na presença de cobre, prata ou platina aquecidos, como por exemplo, para o etanol resultando no etanal.

Segundo a nomenclatura IUPAC, o nome de um aldeído é obtido substituindo-se a terminação “o” do hidrocarboneto correspondente por “al”. Nos compostos que apresentam ramificações, considera-se como principal a cadeia que contém o grupo funcional, iniciando-se nela a numeração.

Perfumes aldeídicos podem ser florais, frutados ou cítricos. Aldeído floral fresco acrescenta a impressão de brisas frescas e flores como jasmim, rosa, íris e lírio do vale. Eles também são adicionados a sabonetes e detergentes para dar-lhes o seu “perfume fresco de limão”. Aldeídos florais verdes dão aos perfumes notas mais nítidas e aromas do ar livre. O resultado é uma fragrância com o cheiro da grama verde e plantas. Enquanto amadeirado aldeído floral acrescenta os aromas de cedro, patchouli, carvalho e outros tons de madeira que sugerem calor.

Os aldeídos aromáticos têm um benzeno ou anel fenilo ligado ao grupo aldeído. As moléculas de aldeídos aromáticos têm estruturas muito complexas, mas são provavelmente o mais fácil de identificar. O benzaldeído é um exemplo que é o aldeído aromático simples consistindo de anel de benzeno com um substituinte formilo e tem odor agradável amêndoa semelhante. Cinamaldeído/3-fenil-2-propenal é de estrutura complexa que dá canela nota. Vanillin/4- hidroxi-3-metoxi-benzaldeído é utilizado como nota de baunilha, uma nota ubíqua em quase todas as fragrâncias. Anisaldeído ou aldeído anisico é amplamente utilizado por sua boa tenacidade. Ele é o principal componente para vários acordes florais como o lilás, espinheiro, anis, madressilva etc.

Os aldeídos mais amplamente utilizado na perfumaria são: C7 (que possui um aroma herbáceo verde), C8 (octanal, laranja), C9 (com cheiro de rosas), C10 (decanal, casca de laranja), Citral, um complexo de 10 carbonos aldeídos (fragrância de limões), C11 (undecanal, naturalmente presentes no óleo de folhas de coentro), C12 (odor de lilás ou violetas), C13 (cerosa, com tom grapefruit) e o C14 (evocando o cheiro de pele de pêssego).

Um dos primeiros perfumes que usou os aldeídos foi o N°5 de Chanel. Criado pelo perfumista Ernest Beaux, em 1921, e desde então os aromas chamados ‘aldeídicos’ conquistaram o mundo! Na verdade, diz-se que o primeiro perfume a usar aldeídos foi o Apres L’Ondee (Guerlain, 1906), que usou o aldeído anísico …

O Chanel N°5 possui em sua formulação aldeídos C10, C11, C12.

Pequena lista de grandes, imensos perfumes aldeídicos (além do Apress L’Ondee e Chanel N° 5):

Heure Intime, Vigny; Dune, Dior; Chanel N°22, Chanel; White Linen, Estée Lauder; D&G (Red), Dolce&Gabbana; Rive Gauche, YSL; Arpège, Lanvin; Je Reviens, Worth; First, Van Cleef & Arpels; Madame Rochas, Rochas; Calèche, Hermès; Calandre, Paco Rabanne; Agent Provocatuer Maitresse, Agent Provocateur; L’Amaint, Coty; Ysatis, Givenchy; Fleurs de Rocaille,  Rochas; Joy, Jean Patou; Boudoir, Vivienne Westwood; Vol de Nuit, Guerlain; Topaze, Avon; Joop! Femme, Joop!; Bandit, Robert Piguet; Must, Cartier; Cabochard, Gres; Aromatics Elixir, Clinique.

White, Undergreen

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A Undergreen é uma perfumaria natural francesa. Movida pela curiosidade, lá fui eu dar lances em uma famigerado leilão do Ebay… Bom, deu tudo errado: o pacote se perdeu, o perfume demorou quase 3 meses para chegar e quando chegou, surpresa! Vazou bem mais da metade, a bonita caixa estava irreconhecível: ensopada, manchada, desfazendo mesmo. Deve ter restado uns 15ml no frasco…
Problemas a parte (que não foram poucos), vamos ao perfume: ele é estranho e foi criado em 2011 por Fabrice Olivieri.
Notas de saída: coco, menta, aldeídos.
Notas de coração: jasmim, flor-de-laranjeira africana, ylang-ylang.
Notas de fundo: tuberosa, raiz orris, estoraque, amyris (elemi).
Começa com leite-de-coco fervido com folhas de menta e uma nuvem de fumaça perfumada de origem laboratorial. Parece que borrifam no ambiente algo incolor, insípido e com cheiro de produto químico para descontaminação, algo assim… É aquele cheiro de limpo levemente enjoado, adocicado e industrial… As flores brancas também são leitosas, nada inebriantes, nada tóxicas. São comportadinhas e dão maior maciez ao perfume. O fundo é interessante: tem tonalidades animálicas, amargas e medicinais, metálicas. Tem de repente uma ‘sujidade’ em um perfume até então asséptico e futurista.
O resultado é interessante, mas eu não voltaria a comprar o White. Fixação e sillage deixam a desejar, dura mais ou menos 3 horas e fica ‘a flor-da-pele’.
Perfume de Stormtrooper-fêmea.
 

Un Jardin en Méditerranée, Hermès

Um passeio em uma cidade mediterrânea, mas não necessariamente a beira-mar. Sabe onde? Na bucólica e bonita estradinha que leva até tal cidade, onde de certos pontos de tal estradinha se vê um pedaço do mar…
Um Jardin en Méditerranée integra a coleção de jardins da Hermès, foi criado em 2003 por Jean-Claude Ellena e foi inspirado no poéticos jardins da terra natal de Leïla Menchari (designer das vitrines da Hermès desde 1977), a Tunísia.
O perfume, de fato, te faz viajar para tal local exótico, fresco e úmido. É sensação de frescor e bem-estar é imediata, uma coisa linda! Só fechar os olhos e deixar sua imaginação trabalhar!
Logo na saída sinto cheiro de casca de figos, chá verde, algo de menta, notas cítricas levemente aquecidas, folhas de pinheiro esmagadas. As notas florais são delicadas, esverdeadas, logo ao amanhecer.
Depois de algumas horas adquire uma consistência adocicada, cremosa porém ainda verde e fresca! Mais tarde li que tinha notas de pistache ao fundo, deve ser isso! E depois que fiquei sabendo de tal nota cismei que tem algo de sorvete de pistache no fundo dele… Tem ainda uma nota amadeirada discreta: como se fossem pequenos galhos ainda verdes recém cortados.
Notas de saída: mandarina, limão, bergamota.
Notas de coração: neroli, oleandro (também conhecido como loendro, loandro, aloendro, loandro-da-índia, alandro, loureiro-rosa, adelfa, espirradeira, cevadilha ou flor-de-são-josé, é uma planta ornamental extremamente tóxica).
Notas de fundo: cipreste, folhas de figo, almíscar, cedro-vermelho (ou junípero-vermelho, cedro-de-lápis).
Olha só: o cedro-vermelho (que botanicamente falando não é um cedro) é usado nos Estados Unidos na fabricação de lápis! Achei então o cheiro de tais galhos de madeira que eu citei antes: lembram do cheiro dos seus velhos lápis Faber-Castell exalavam quando apontados? Exatamente esse cheiro!
Un Jardin en Méditerranée é uma deliciosa viagem olfativa! Te agradeço, Adriana Meire pelo convite…

Exposição ‘Perfume de Princesa’

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Pois então, eu trabalho pertinho do Solar da Marquesa, e fui lá ver a exposição “Perfume de Princesa”. Na verdade, fui 2 vezes: na primeira o Beco do Pinto – onde está a  maior parte da instalação – estava fechado por causa da chuva, segundo o segurança do local a água pode danificar as ventoinhas que espalham os aromas. Desta vez então aproveitei para visitar a exposição permanente do Solar. Lá estão objetos particulares e outros da época em que viveu a Marquesa (Domitila de Castro, 1797 -1867).
Não tem preço ver aqueles objetos que fizeram parte da história de nosso país de pertinho. E no tal dia chuvoso só tinha eu no Solar, que dizem as línguas ser assombrado pelo próprio espírito da Marquesa. E eu torcendo pra ver a dama…
No ambiente que teoricamente seria o quarto da Marquesa, além de sua cama, cadeira sanitária e outros pertences, temos expostos objetos de toucador e dois perfumeiros de cristal e prata.
Mas o foco desse post não são os pertences da Bela Titilia. O foco é o “Perfume da Princesa”. Diz a lenda que no local já encontraram poças de perfume que apareceram e desapareceram sem deixar vestígio, funcionários afirmam ter visto e até mesmo conversado com Domitila. Diz-se ainda que ela ‘contava’ aos outros sobre seu estado de espírito através do perfume das flores que espalhava pela casa.  Seria assim que seu amante, D. Pedro I, sabia como que humor a iria encontrar…
Enfim, voltei ao Solar em um dia de sol escaldante, garantia que as ventoinhas não estavam ameaçadas.
Temos uma parte da instalação do artista Wagner Malta Tavares no Museu da Cidade de São Paulo, outra na sala da banheira, dentro do Solar, e a maior parte dela no Beco do Pinto (veja aqui:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/11/1365390-instalacao-exala-no-centro-de-sp-aromas-inspirados-na-marquesa-de-santos.shtml, e entenda o porque da exposição aqui: http://www.museudacidade.sp.gov.br/exposicoes-expo.php?id=113).
Bom, o vento que estava bem forte no Beco acabou atrapalhando um pouco, e os aromas acabam por se misturar. O que posso dizer é que logo na entrada somos invadidos por rosas vermelhas! Nas outras ventoinhas (que liberam aromas, e como residual, deixam no chão gotículas de algo que parece cera de vela) pude sentir aromas de íris, lírios, almíscar com sândalo, rosas brancas, angélica, patchouli (esse eu achei que tinha algo de doce, como se fosse marzipã, mas acredito que tenha sido o efeito da mistura de aromas e do sol…). O aroma que vem da sala da banheira é curioso: Tavares, o artista criador da obra chamou de ‘cheiro de orgia’. O que senti foi uma aroma amanteigado, ceroso, almiscarado, morno. Tem cheiro de pão-doce quente!
Não deixem de visitar, tanto a exposição quanto o Solar! Ambos são incríveis!
Mais uma coisa… lembram quando eu falei da leitura do livro de Alain Corbin, “Saberes e Odores – O olfato e o imaginário social nos séculos XVIII e XIX” (http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10043)? É curioso observar o contraste: de uma lado, as flores da Marquesa, de outro os aromas humanos (até demais) e das sujidades produzidas dos moradores de rua instalados em barracas ali pertinho… Será que eles percebem o aroma das rosas?
Maiores informações sobre o Solar da Marquesa aqui: http://www.museudacidade.sp.gov.br/solardamarquesadesantos.php

Parfum D’Ete, Kenzo

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Fresco, verde, limpo, arejado! Parfum D’Ete, para os dias quentes, é a perfeição! Hoje é um desses dias, amanheceu nublado, abafado e quente, um verdadeiro forno! Aliás, acho que esse verão será infernal, mas ok, não estamos aqui para falar do clima…
Mesmo assim registro minha queixa: odeio calor!
Voltando ao Parfum D’Ete. Faz tempo, tive uma miniatura dele. Folhinha pequena, delicada. Usei até o final, e depois acabei ganhando um frasco de 50ml da amiga de uma amiga que recebeu o perfume do namorado e detestou… bom pra mim!
O perfume foi lançado em, 1992 e seu frasco era outro: tinha tampa, textura, era mais redondo. Foi relançado em 2002 com novo frasco: longilíneo, liso, daqueles que você demora para descobrir que fica ‘de pé’, e mesmo assim, morre de medo dele tombar e se arrebentar todo… Foi criado por Antonie Lie.
Ele é um perfume com cor: tem cheiro de verde! Cheiro de folha, cheiro de planta inteira. Tudo está ali: folhas, caule, florzinhas brancas, a água da rega.
Tem cheiro de folha esmagada, folha cortada, folha inteira. Tem cheiro de flores brancas ainda não desabrochadas, são flores brancas sem evidência na porção doce e narcótica. São virginais. Tem cheiro de caule verde, de talinho de mato. Tem cheiro de água limpa e fresca, mas sem parecer marítimo ou ozônico. É água limpa e refrescante, daquelas que não tem cheiro, mas acentuam o odor da planta regada, entende?
No fundo, tem breves notas de madeira de facetas adocicadas e verdes. Eu acho que na verdade o final dele cheira a lustra-móveis.
Notas de saída: lírio-do-vale, notas verdes.
Notas de coração: peônia, jasmim, jacinto.
Notas de fundo: sândalo, almíscar branco.
Apesar desta frescura toda, Parfum D’Ete não é um perfume fácil! Ele é de grande delicadeza, mas de personalidade forte. Muitas pessoas não gostam dele, já ouvi que ele ‘cheira a produto de limpeza’, que é enjoativo. Eu gosto deste jogo: é casto, limpo, puro, mas promete que vai desabrochar a qualquer momento. As flores vão entreabrindo de leve e o jasmim deixa um suave rastro orgânico e viciante, e para por aí. Virginal, mas não assexuado, é a promessa do que acontecerá depois…
Para mim, Parfum D’Ete cheira a elfo. Isso, elfo, daqueles do Senhor dos Anéis. Me diz aí, quem conhece o perfume e os livros/filmes, se Galadriel não tem tal aroma!
E para mim também é perfume de noiva…
     

Patchouli Magique, Nouvelle Etoile Brocard

Bom, já falei anteriormente sobre o patchouli e sobre a marca Novaya Zarya, que agora se chama Nouvelle Etoile. Comprei o Patchouli Magique depois de ler que ele se pareceria com o exótico e difícil de encontrar Borneo 1834, de Serge Lutens.
Se parece, não vou poder dizer, pois não possuo ou conheço o tal Borneo. Mas fiz uma boa compra, isso posso garantir!
Tenho minha queda pelos anos 60/70, pelo movimento Flower Power, amo rock progressivo e a estética de tal época… E gosto muito do aroma terroso, doce, picante e místico do patchouli.
O tal perfume russo de parcos 16ml é puro patchouli, temperado com fumaça de incenso, sândalo e algumas notas frutais bem no início. Abre com a terra-doce-sujinha do patchouli misturado com notas cítricas abafadas que duram segundos. Desdobra-se em facetas do patchouli: ora esfumaçado e ritualísitco, ora adoçado e absolutamente ‘casa de artigos indianos’ por causa do sândalo, ora mais ‘pesado’ e quase animálico por causa do almíscar e da baunilha.
É um perfume pesado, denso. O engraçado é que o patchouli aqui tem um aroma carnal – humano – eu diria. Cheiro de pele, de leve camada de suor fresco e gordura. Não tem cheiro de ‘hippie que não toma banho e disfarça com óleozinho de patchouli da farmácia’, tem cheiro de gente que esfregou folhas e caules de patchouli no braço. Dá pra entender?
O fundo do perfume é abaunilhado, atalcado, abafado, poeirento, tem algo de Boudoir, de ultra-feminino-sensual-vintage…
Tem que gostar de aromas intensos, profundos, duradouros, do contrário, nem chegue perto do Patchouli Magique. Ele não é um perfume fácil, mas é uma boa (e barata) surpresa…

 

Lançamento do livro “Diário de um Perfumista”, de Jean-Claude Ellena – dia 26/11/2013 – na Casa do Saber

Fiquei sabendo de tal evento através do Dênis Pagani, e claro, fiz minha inscrição na mesma hora!
Na tarde do dia 26 saí mais cedo do trabalho, peguei metrô-metrô-trem pau-de-arara e fui na direção da Casa do Saber no Itaim Bibi. Tive sorte, cheguei cedo, comprei o livro, conversei.
Por volta das 20h entramos em uma sala confortável cheia de poltronas, era lá que em breve falaria o mestre Jean-Claude Ellena. Logo ele chegou, sem alarde, sem pompa. Estava vestido de forma discreta, em tons sóbrios e neutros.
Conto agora trechos da palestra/aula/lançamento de seu livro, não vou seguir uma sequência:
Dadas as devidas apresentações, iniciou dizendo “perfume para mim é um ato poético”, disse ter ideias olfativas e depois escrever sobre tal processo. Como está em seu livro, “o odor é uma palavra, o perfume é a literatura” …
Contou sobre o processo criativo do novo perfume da linha Hermessence, o Epice Marine. Conta que a inspiração para tal perfume nasceu de um encontro profissional com um chef de cozinha que logo tornou-se amigo pessoal. O tal chef é apaixonado por especiarias, e um dia estava ‘temperando’ um iogurte com um ingrediente que chamou a atenção de Ellena: era o cominho que havia passado por torrefação. Tal especiaria tem aroma de pão, de sésamo e avelã grelhados, segundo a percepção de Ellena. Recebeu do novo amigo um grande pacote de tal especiaria e solicitou a uma amiga que fizesse a destilação do produto.
O perfume teria então o cheiro da Grã-Bretanha, do oceano frio, das especiarias. Ao levar a criação para seu amigo culinarista, Ellena ouviu do mesmo que faltava algo ali no aroma do perfume: faltava o cheiro da neblina! Ao ser questionado por Ellena, o cozinheiro disse que a tal bruma teria cheiro de ‘tapioca cozida, amido e um certo whisky escocês’.
Ellena não teve dúvidas: encomendou uma garrafa de tal whisky e por alguns dias ‘perfumou-se’ com ele! O novo aroma fora aprovado pelo chef e adicionado ao perfume. Além disso, faltava ali o aroma de uma pequena cidade que já foi rota comercial de especiarias na França. Queria que o perfume lembrasse os barcos, o piche, as cordas.
Nesse momento o perfume fora borrifado no ar e distribuído em fitas olfativas! Foi como visualizar todo o processo até então descrito por Ellena! Tudo estava ali: o cominho imperioso, as cordas de cânhamo, o betume das proas dos barcos, a madeira seca, a maresia, as especiarias, o tom alcoólico, seco e masculino do whisky… magnífico…
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Meu enorme talento para o fotografia comprovado em uma imagem…
Sobre sua história, Jean-Claude conta que mesmo sendo filho de um perfumista, perfumes nunca foram assunto em sua casa, o pai não falava e a mãe não se interessava. Aos 16 anos começou a trabalhar na indústria de Grasse. Isso o auxiliou demais, pois conheceu matérias-primas, processos de extração e outras rotinas da produção de perfumes. Conta ainda que sua inspiração pode vir de qualquer lugar, pessoas, acontecimento. Tudo é anotado, e em algum momento torna-se perfume.
Em um dado momento do evento o público pode fazer perguntas, citarei pequenos trechos…
Ao ser ‘desafiado’ pela apresentadora da palestra sobre um perfume inspirado no brasil, Ellena conta que existe na coleção Hermessence a fragrância Paprika Brasil, e que sua inspiração para a mesma foi o livros “Tristes Trópicos” de Claude Lévi-Strauss. O perfume leva pimenta, e Ellena queria expressar no aroma o ardor e o sabor de tal fruto. Conseguiu. Mais uma vez perfume é borrifado no ambiente e ganhamos fitas olfativas. De fato, dá um comichãozinho na ponta do nariz, um leve e delicioso ardor! O perfume é rico em íris, pimenta e notas amadeiradas. Sinto algo como a polpa do Jatobá, farinhenta, macilenta, não sei explicar bem. O Dênis definiu como ‘bananoso’, e sim, pode-se dizer que é isso. Divino!
Falou ainda sobre a massificação dos aromas, do trabalho do perfumista ser determinado pela equipe de marketing das marcas, da cobrança e pressão que os perfumistas sofrem para criar produtos que atendam ao gosto de milhares. Por isso Ellena é feliz na Hermes… Lá ele tem liberdade de criar o que quiser, de não depender de pesquisas de aceitação popular, somente o presidente/diretor do grupo avalia seus perfumes… Ele é o artista, ele manda em sua obra-de-arte!
Disse que para ele não existem aromas ruins, existem aromas! O que pode ser desagradável para uns pode ser interessante para ele! Cita o exemplo da rosa, que ao receber um pouco de civeta (‘que cheira a merda’, palavras de Ellena), desabrocha e revela toda a beleza de seu aroma!
Foi questionado sobre a perfumaria de nicho, e disse ser extremamente favorável a ela. Conta que a mesma surgiu em 1976, com a marca L’Artisan Parfumeur. Para tal marca Ellena criou o perfume Bois Farine, inspirado em uma viagem que fizera para as Ilhas Reunião. Conta que para criar tal perfume inspirou-se em uma pequena flor que tinha aroma farinhento e em madeira de sândalo. Para auxiliá-lo no processo de criação, comprou um quilo de farinha! Disse também que o consumidor deve ter cuidado com a ‘falsa perfumaria de nicho’ …
Ao ser questionado sobre a sensualidade feminina, Ellena volta no tempo. Fala sobre a perfumaria clássica que durou até os anos 70. Era aristocrática e privilegiava fórmulas longas, complexas. O virtuosismo do perfumista dependia da quantidade de ingredientes que eram utilizados! No final dos anos 70, a perfumaria europeia descobre que seu futuro financeiro estava nos Estados Unidos… A partir daí a perfumaria francesa se adapta aos códigos olfativos americanos, onde a limpeza e assepsia são valorizadas.
Conta que na época, o sabão em pó americano era aromatizado com almíscar sintético, e esse, por ser insolúvel em água permanecia na superfície dos tecidos e consequentemente, passava para a pele de quem usava a roupa. Por isso que até hoje a maioria das fórmulas de perfumes americanos (ou criados para tal mercado), possuem na base de 20 a 30% de almíscar sintético, sempre associado a limpeza. Compara ainda as cenas de amor do cinema europeu e americano: nos filmes americanos a mulher sai do banho, e aí sim vai pra cama com o amado. Nos filmes europeus o amor acontece independente do chuveiro, o aroma corpóreo é tolerado e até mesmo excitante! Deu pra entender a diferença entre sensualidade europeia e americana?
Depois de tamanha aula, ainda tivemos a chance de ter nossos livros assinados, quem quis (eu) tirou fotos e recebeu toda simpatia de Jean-Claude Ellena. O mestre, que diz não ser talentoso – pois tem facilidade em criar aromas. Tendo facilidade, logo não pode ser considerado talentoso, pois é fácil para ele – é simpático, sorridente, plenamente consciente de sua capacidade! É apaixonante!
Diana Jean claude 2 Diana Jean claude 3
Obrigada pelas fotos, Dênis!!