A História do Sabão e da Higiene Corporal, por Leopoldo Costa

Encontrei tal texto muito interessante no blog do Leopoldo Costa (segue o link: http://stravaganzastravaganza.blogspot.com.br/2011/03/historia-do-sabao-e-da-higiene-corporal.html). Entrei em contato com o mesmo através de email e ele gentilmente autorizou a reprodução de seu texto aqui no blog! Acredito que ele venha complementar e série anterior “A História do Banho”, que apresentei em 3 partes aqui no blog! Vamos la?

A História do Sabão e da Higiene Corporal
 
Por Leopoldo Costa
  
Na Antiguidade
 

Foi encontrado numa escavação na Babilônia, um cilindro de argila datado de 2800 a.C, que trazia a descrição de um produto elaborado com gordura animal fervida com cinzas que se transformava numa pasta que era usada como creme para pentear os cabelos. Não existe nenhuma referência da utilização desta pasta para fins de limpeza.
No Egito, um papiro datado de 1500 a.C, que fazia parte de um tratado médico, existe a descrição de um produto combinando gordura animal e óleos vegetais com sais alcalinos, formando uma pasta usada para tratamento de problemas de pele e para banhos medicinais.
Cleópatra (70-30 aC.), famosa pelos seus banhos, não conhecia o sabão. Nas suas abluções, usava óleos essenciais, leite de égua e areia finíssima como agente abrasivo de limpeza.
Nos livros da Bíblia, está registrado que os israelitas usavam uma mistura de cinza de madeira e óleos vegetais como agente de limpeza. Moisés, por exemplo, exigia que todos tivessem uma boa higiene pessoal e se mantivessem limpos de corpo e alma.
Em Roma, Plínio, o Velho (23/24-79) na sua ‘História Natural’, menciona a preparação do sabão a partir do cozimento do sebo de carneiro com cinzas de madeira. Pela sua descrição o procedimento exigia o contínuo cozimento da pasta até obter um produto mais sólido. Ele menciona que os Fenícios já conheciam essa técnica desde 600 a.C. e também relata que mais tarde, que os Romanos importavam da Gália um sabão fabricado de sebo, cinzas e cal.
O médico grego Galeno (130-200), que clinicou em Roma, receitava uma pasta preparada com cinzas e gorduras para a remoção da sujeira pessoal e dos tecidos mortos da pele. O mesmo fazia o alquimista árabe Geber (Jabin Ibn Hayyan) num manuscrito do século VIII.
Na Grécia, a higiene corporal era feita com pedaços secos de argila, areia fina, pedra pome e cinzas, sendo depois, besuntados com óleo e raspados com uma lamina de metal chamada ‘strigil’ para arrastar todas a sujeira.
Os Romanos eram cuidadosos com a higiene pessoal e tomavam banho regularmente. Usavam os mesmos produtos e o mesmo sistema dos Gregos e depois, eram massageados com azeite de oliva perfumado com bálsamo e ervas. Em Roma certamente o sabão era usado para outros tipos de limpeza doméstica, pois foi encontrado nas ruínas de Pompéia uma fábrica de sabão em barras.
Em 312 a.C. foi construída em Roma a primeira terma para banho público que era alimentada com a água trazida através dos famosos aquedutos de pedra que sobrevivem até hoje. Só que os banhos públicos em pouco tempo tornaram-se, além de uma local de prática de higiene corporal, um ambiente de luxúria e libertinagem.

Na Idade Média 

Depois, da queda do Império Romano até a Idade Média, o habito de tomar banho foi esquecido.
Na Idade Média, o banho, era considerado prejudicial a saúde. As pessoas geralmente tomavam apenas dois ou três banhos durante o ano, costumeiramente nos meses da Primavera e Verão. A razão da escolha do mês de Maio como o mês dos casamentos,era por que como as noivas tomavam durante o mês um dos banhos anuais, o odor das partes intimas não era tão forte. Também o hábito do uso do bouquê de flores pela noiva tinha a finalidade de mascarar os odores corporais.
Todos da família tomavam o banho na mesma tina, na mesma água. A prioridade era do chefe da família, seguido pela esposa e sucessivamente pelos filhos pela ordem de idade. Os últimos eram os bebês, quando a água já estava bem suja.
O cheiro dos corpos impregnava os ambientes, mas as pessoas estavam acostumados com isto e parecia normal. As roupas das pessoas e de cama eram lavadas também somente duas ou três vezes ao ano, por que eram poucas e o sabão custava muito caro. As casas e os moradores viviam infestadas de pulgas, piolhos e percevejos. Nas áreas urbanas, as pessoas usavam o penico para fazer as necessidades fisiológicas e estes como a água usada no banho, eram atirados pela janela. O lixo era também jogado pela janela e acumulava perto das casas. Para piorar, os porcos que durante o dia vagavam pelas ruas, se serviam destes dejetos. Devido a tanta falta de higiene e também o costume de manterem vacas, porcos e ovelhas para passar a noite em cômodos contíguos à casa, os ratos e baratas proliferavam, causando doenças e pestes como a Peste Negra no século XIV.
No Império Bizantino a higiene foi revitalizada e voltaram os banhos a ficar na moda.

A Origem do Vocábulo ‘Sabão’ 

Diz uma lenda que a palavra sabão (‘sapo’ em latim) tem sua origem no monte Sapo, local onde eram efetuados sacrifícios de animais às divindades. Na época das chuvas os resíduos gordurosos dos animais sacrificados, junto com as cinzas, eram levados pelas águas até os pântanos da margem do rio Tibre. Quando as chuvas cessavam e com o calor do sol, a concentração de gordura e cinza era aumentada no pântano. As lavadeiras da região descobriram que a lama do pântano era um bom detergente para lavar as suas roupas.
Segundo outros etimologistas, a palavra ‘sabão’ deriva-se do germânico saiponque designava um produto pastoso, que era usado para limpeza corporal dos Germanos. Eles e os Gauleses conheciam também uma pasta de gordura e de cinzas que era usada para colorir o cabelo de vermelho.
 
 
A Indústria do Sabão
 
 

No século XIII a técnica de fabricação de sabão foi introduzida na França e no século XIV na Inglaterra.
No século XIX a indústria de sabão foi desenvolvida em Marselha na França, surgindo concorrentes em Alicante na Espanha, Savona, Veneza e Gênova na Itália.
Uma história ingênua e apócrifa relata que em Savona, na Itália, ao deixar cair lixívia (de cinza) em óleo, uma mulher teria descoberto o sabão.
Nessa época o sabão era preparado na região mediterrânea com azeite de oliva e no norte da Europa e Inglaterra com sebo animal.
Em 1622 o rei Jaime I concedeu o monopólio da produção de sabão na Inglaterra a uma única empresa, recebendo para isso uma taxa anual equivalente a 100 mil dólares de hoje.
Em 1766 a Coroa portuguesa estatizou todas as saboarias do reino.
Em 1791 o químico francês Nicolas Leblanc (1742-1806) registrou a patente do método de produção da barrilha (carbonato de sódio) a partir da salmoura, permitindo grande oferta de um alcalino de baixo custo para a fabricação de sabão.
Michel Eugene Chevreul (1786-1889) descobriu a composição química das gorduras em experiências realizadas entre 1813 e 1823.
Em meados do século XIX o químico belga Ernest Solvay (1838-1922) criou o processo de obtenção da soda caustica a partir da amônia. Todos estes acontecimentos colaboraram com o desenvolvimento da indústria de sabão e o barateamento de custos.
No final do século XVIII o banho cotidiano voltou à moda, considerado como um benefício para a saúde, houve até um movimento médico denominado ‘cura pela água’.
Nos Estados Unidos inicialmente os colonos não produziam sabão e usavam o produto importado da Inglaterra. Logo foi iniciada a produção a nível doméstico.

Colgate 

Em 1806, William Colgate (1783-1957), filho de uma família de imigrantes ingleses, residentes no interior dos Estados Unidos, tinha 23 anos quando foi tentar a vida em Nova Iorque. Ganhou dinheiro e logo depois inaugurou a primeira fábrica de sabão nos Estados Unidos e em 1830 começou a comercializar o seu produto em todo o país, que era o sabão em tabletes de peso uniforme, diferente do usual na época, quando se cortava um pedaço de uma barra de quase meio metro de comprimento no balcão do estabelecimento e cobrado pelo peso.
Em 1872 lançou o sabonete perfumado para banho. Foi a origem de uma das maiores empresas dos Estados Unidos que diversificou as suas atividades passando a produzir também creme dental e produtos congêneres.
 
Lever e a Unilever
 

Em 1884 na cidade de Bolton na Inglaterra William Lever (1851-1925) e seus irmãos fundaram a empresa ‘Irmãos Lever’ com o propósito de comercializar sabão à peso, cortados na frente do freguês, como era o costume na época.
Estava visitando um estabelecimento comercial quando de repente chegou uma senhora e pediu uma libra ‘daquele sabão fedorento’ o que deixou William bastante preocupado pois era ele quem fornecia o produto para a loja. Então teve a idéia de melhorar a qualidade e perfumar de leve o sabão, dar-lhe uma marca e vendê-lo em tabletes com peso padrão e embalagem de bom gosto. Tinha criado o sabão ‘Sunlight’ e para produzi-lo com a sua fórmula e embalagem contratou uma fábrica de terceiros. Foi um grande sucesso de vendas na Inglaterra. Logo construiu uma fábrica própria e em apenas oito anos de mercado, começou a ser conhecido em toda a Europa e já era o sabão mais vendido no mundo.
Para garantir matéria prima em quantidade, qualidade e preço os ‘Irmãos Lever’ compraram fazendas na África Ocidental para produzir óleo de palma e uma frota de navios baleeiros para garantir o abastecimento de gordura animal (óleo de baleia).
Em 1894 lançaram o sabonete perfumado ‘Lifebuoy’(que existe até hoje) e em 1899 o sabão em flocos ‘Lux’. O faturamento da empresa cresceu geometricamente. Como havia excedente de óleos vegetais produzidos nas fazendas africanas decidiram também produzir margarina. Com o apoio logístico montado para a venda de sabão, ganharam com o novo produto uma boa fatia do mercado, vindo a preocupar a maior vendedora de margarina europeia que era a Unie, empresa formada pela família Jurgens e família Van den Bergh com sede na Holanda. Depois de muitas negociações decidiram juntar as forças e em 1930 as empresas se uniram o que deu origem a Unilever, (“Uni” de Unie e Lever) hoje uma das maiores empresas de produtos de consumo do mundo com ramificações em quase todos os países do Mundo, inclusive no Brasil.

O Sabão no Brasil

No Brasil, em 1860, já havia fábricas de sabão em algumas cidades. Produziam o sabão de barra que era conhecido como ‘sabão do reino’, pois inicialmente era importado de Portugal.
Nas fazendas de Minas Gerais, nos séculos XVIII e XIX, era fabricado um tipo de sabão preto usando os restos de gordura de porco e de boi e a ‘decoada ’, um liquido escuro (lixívia) que era obtido, passando água por um balaio cheio de cinza que ficava apoiado sobre pedras. O balaio com cinzas permanecia dias e dias gotejando a substancia, necessitando de ser reposto a água, até acumular o volume necessário para a quantidade de sebo disponível. Depois, num caldeirão grande a ‘decoada’ era misturada com o sebo e fervido até ganhar o ponto adequado. Faziam-se os sabões em formatos de bolas que tinham um bom poder detergente e era usado para lavar tudo, até para as pessoas tomarem banho. Eram embalados em palha de milho, sendo o único tipo de sabão que conheciam e podiam dispor. Como não era tão alcalino, se fosse deixado em lugares inadequados, os famintos cachorros das fazendas o devorava.
Sabões de toucador perfumados ou sabonetes eram coisas raras na época colonial. Importados da França e de preço elevado, inacessível para a maioria da população. Os ricos fazendeiros tinham sempre um sabonete francês guardado a sete chaves, para ser usado quando recebesse visitas importantes como a do padre ou de algum nobre da Corte.

A Glicerina

A glicerina é um subproduto da industrialização das gorduras para a produção de sabão. A palavra deriva-se do grego ‘gluceros’, que significa ‘doce’. Foi descoberta  por Carl Wilhelm Scheele (1742-1786) e foi Domier quem descreveu o método de recuperação da glicerina durante o processo de saponificação. A glicerina é usada na medicina, na indústria de alimentos e na fabricação de cosméticos sendo um excelente agente umectante.

 
Postado em 1 de Março de 2011 por Leopoldo Costa.
 

Obrigado Leopoldo, pela gentileza e generosidade!

Encre Noire Pour Elle, Lalique

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Ah, Lalique! Sempre despertando meus desejos consumistas! E lá fui eu em busca do bonito Encre Noire Pour Elle. Como resistir a elegância do frasco negro, de letras douradas e aspecto pesado? Só pra constar, ele é bem pesado mesmo…

Demorou 3 meses para chegar, importação é aquela história já conhecida, mas valeu a pena!

Encre Noire Pour Femme é perfume de princesa! Não de princesa Disney, mas princesa de verdade, realeza, nobreza e a coisa toda. É fino, elegante, bem elaborado e requintado! Só não espere a sensualidade prometida pela propaganda: ele é elegante, não sexy. Princesa, lembra? Aliás, nunca nenhum perfume da Lalique me trouxe a atmosfera de sensualidade, e sim de requinte e bom gosto…

Foi apresentado ao público em 2009 e criado por Christine Nagel. 

Notas de saída: bergamota, frésia, ambrette (musk mallow).

Notas de coração: osmanthus, rosa, kephalis (molécula desenvolvida criada pela casa Givaudan que possui nuances de tabaco e âmbar, transmitindo sensação de de calor e conforto).

Kephalis Kephalis

Molécula de Kephalis

Notas de fundo: vetiver, almíscar, cedro.

Encre Noire tem cheiro de creme de rosas, com um toque adocicado. Abre com nuances verdes que logo dissipam e dão lugar ao “cremoso” de rosas, temperado com o frescor do vetiver e do cedro e ao mesmo tempo com o calorzinho aconchegante do kephalis.

São poucas notas, é um perfume simples e de bom resultado. Consegue transmitir a mensagem de imensa feminilidade: delicada, romântica e até mesmo frágil.

Agrada mulheres de todas as idades, principalmente as que gostam de tons pastéis, objetos róseos, romances, comédias açucaradas e de finais felizes! E mesmo as que não são assim românticas (como eu, a exemplo), terão dificuldades em dizer “não” ao Encre Noire. Ele é um perfume de sonho, feito de nuvens e de coisas macias! 

E engraçado, o vidro negro nos remete a algo mais exótico, quente e sedutor. Mas acho que aí é que está toda a graça de tal perfume, a sensualidade que existe no simples fato de ser mulher, sem artifícios ou apelos. Nossos mistérios…

(Encre Noire Pour Elle veio ao público 3 anos depois do perfume Encre Noire masculino. Seu frasco remete a um tinteiro adornado com letras douradas, em bonita caligrafia.) 

 

 

Byblos, Byblos

Azul! De embalagem e de alma! É um perfume azul! Da cor do mar. Embora Byblos seja um exemplar da família olfativa floral frutal, acho que ele é um bom exemplo do que eu imagino que deva ser um perfume inspirado na Itália e na região Mediterrânea. 

Foi criado em 1990 por Ilias Ermenidis, para a marca italiana Byblos.

Tem aquele efeito “assabonetado”, que tantos amam e tantos odeiam. É delicado, mas não    de pouca sillage e fixação. Suas notas frutais são “abafadas” pelo rico buquê floral (seriam as culpadas a íris e a violeta?) e possui ainda um “ar” fresco, marítimo, costeiro. 

Notas de saída: abacaxi, maracujá, cassis, mandarina, cássia, pêssego, grapefruit, margarida, bergamota.

Notas de coração: mimosa, lírio, íris, gardênia, violeta, orquídea, jasmim, heliotrópio, ylang-ylang, rosa, lírio-do-vale.

Notas de fundo: almíscar, pimenta-preta, framboesa, vetiver.

Byblos para mim é uma visita a uma farta e variada floricultura! Lá existem algumas gramíneas e heras que dão uma leve nuance verde ao buquê e o torna menos doce e melífluo. Deve ser o vetiver e a pimenta…

As notas frutais estão presentes, principalmente o maracujá e o cassis. Sinceramente, não sinto o abacaxi. O curioso é que a nota de saída que mais percebo é a margarida! Fresca, pura, bucólica! 

As notas florais são bem mescladas, mas o destaque fica com a rosa, o lírio e o ylang-ylang. Gostaria que tivesse o heliotrópio mais pronunciado, para dar uma nuance mais calorosa e cremosa ao perfume. Mas Byblos é assim: fresco e denso ao mesmo tempo. Tem algo de maresia e algo de campestre!

Aos que admiram florais levemente adocicados e de longa duração, Byblos é o paraíso!

E é isso que imagino de um perfume italiano: rico, cheio de notas exuberantes, um misto de inocência e malícia. Fresco porém intenso. Nada dessas águas de colônias com cheiro de limonada que dizem por aí serem a cara do Mediterrâneo…

Uma curiosidade: Biblos (βύβλος) é o nome grego da Fenícia, era conhecida pelos antigos egípcios por Kypt, Keben, ou Kepen.

Aparentemente, os gregos chamaram-lhe Biblos porque era através de Gebal que o byblos (βύβλος “o papiro egípcio”) era importado para a Grécia. 

Biblos situa-se na costa mediterrânea do atual Líbano, a 42 quilômetros de Beirute. É um foco de atração para arqueólogos devido às camadas sucessivas de destroços resultantes de séculos de habitação humana. 

                

Resultado da enquete: “Qual seu post preferido no ‘aloucadosperfumes’?”

Primeiramente, agradeço a quem respondeu a enquete. Segue abaixo o resultado. Com isso, vi o que mais agrada aos leitores e tentarei fazer com que os posts favoritos de vocês sejam mais presentes no blog!

Qual seu post favorito no “aloucadosperfumes”?
 
Resenhas sobre perfumes   11 69%
Artigos sobre história da perfumaria e correlatos   2 13%
Perfumados fragmentos literários   0 0%
Matérias primas   1 6%
Métodos de produção de perfumes   1 6%
Demais curiosidades sobre perfumaria, indicação de sites, etc.   1 6%

Até amanhã e excelente semana a todos!

E sem mais porque hoje é meu aniversário e eu quero é aproveitar!!! Uhuuuuu!!!

Covet, Sarah Jessica Parker

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Sempre reclamo que o tempo passa rápido demais, deve ser coisa de quem já chegou aos 30. Mas hoje vou contrariar as queixar diárias e vou lá para o mês de junho.

Aqui em São Paulo em junho é frio. Tem Festa Junina, quermesse. Geralmente a noitinha, nos pátios das igrejas dos bairros. Tem cheiro de curau de milho, cravo, canela, gengibre, bolo de fubá com erva-doce, maçã-do-amor (e está pra nascer pessoa nesse mundo que goste mais de maçã-do-amor do que eu), especiarias. Tem cheiro de vinho quente e quentão (moço, vê logo um litro de cada pra eu não ter que pegar fila toda hora). E cheiro do Covet, da atriz Sarah Jessica Parker.

Calma gente, eu não enlouqueci e nem bebi os litros ainda não comprados de quentão e vinho quente, mas que junho me aguarde… Aliás, tenho uma receita ótima de vinho quente, se quiserem me digam…

Explico: Covet tem cheiro de quermesse! Por favor, excluam o churrasco, o cachorro-quente e o pastel.

Foi lançado em 2007, aproveitando o embalo do sucesso do seriado Sex and the City e criado por Ann Gottlieb. O slogan publicitário era: “Eu tenho que tê-lo!”. Credo, que apelativo…

Covet é quentinho, especiado (embora notas de especiarias não constem em sua composição) achocolatado e amadeirado! Mas não pense que é daquelas fragrâncias confortáveis: ele tem lá sua agressividade, é intenso, tem arestas e excessos!

Para mim ele tem cheiro de noz-moscada, chocolate, cardamomo, fumaça de fogueira (pula iaiá, pula ioiô! – tá vendo? Quermesse pura!), alguma folha esmagada que eu não sei o nome e uma dose de cachaça da boa, de alambique.

Mas vamos as notas reais, e não as que eu inventei:

Notas de saída: lavanda, chocolate amargo, limão siciliano, flor de gerânio (de uma espécie geralmente utilizada na perfumaria masculina).

Notas de coração: magnólia, lírio-do-vale, néctar floral (geralmente do gênero Lonicera).

Notas de fundo: âmbar, musk, madeira de Cashmere, vetiver, madeira Teak (da árvore  Tectona grandis).

Tem alguns elementos comuns na perfumaria masculina no Covet: madeiras, lavanda, vetiver, gerânio. Acho que ele seria compartilhável para homens que gostam de fragrâncias tais como Joop! Homme e Lapidus Pour Homme de Ted Lapidus.

Já li muitas vezes sobre a nuance “verde” de Covet, mas para mim ela é tão sutil que quase não se percebe. Como eu disse, ali tem o sumo de alguma folha esmagada, mas tão de leve que as demais notas acabam por deixá-la ali, acanhada num cantinho.

Sobre a embalagem não falarei, porque embora ache que a cor do perfume combine muito bem com a fragrância, a tal florzinha da tampa não tem cabimento.

Enfim, gosto do Covet. Em junho.

Tuberosa (Polianthes tuberosa)

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O nome comum deriva do latim “tuberosa”, ou seja, “inchada” fazendo referência ao seu sistema radicular. “Polianthes” significa “flor cinza”. Os astecas chamaram-na “Omixochitl “ que significa “flor de osso”. A planta tem um lugar de destaque na cultura e na mitologia indígena. As flores são usadas em cerimônias de casamento, guirlandas, decoração e vários rituais tradicionais.

Nenhuma nota na perfumaria é mais surpreendente, carnal, cremosa ou contraditória do que a tuberosa. A flor é uma mistura de frescor floral e opulência aveludada. Os vitorianos proibiam jovens virgens de inalar o cheiro da tuberosa, com receio de que tal aroma lhes despertasse uma volúpia incontrolável!
Dove Roja disse que a tuberosa é a “prostituta da perfumaria”.
Originária do centro-sul do México (onde cresce espontaneamente) era cultivada para produzir o óleo no sul da França, em Marrocos, no Egito e na China. A planta cresce com espigas alongadas de até 45 cm de comprimento, que produzem flores de cor cerosa e perfumadas que florescem a partir da base para o topo da haste. Folhas verdes e brilhantes se agrupam na base da planta e folhas menores se distribuem ao longo do caule. As suas flores podem ser brancas ou de cor creme, sendo utilizadas como flores de corte e uma só haste de flores pode perfumar um ambiente durante semanas. De suas raízes também é extraído um óleo usado para fazer incensos e medicamentos.
A tuberosa era “explorada” através da técnica de “enfleurage” desde a sua introdução em Grasse, no sul da França, no século 17. A questão é que são necessários mais de 1.200 quilos de flores para produzir 200 gramas do absoluto, o que torna a tuberosa uma das mais caras matérias-primas naturais para uso.
Por isso, não é surpresa que grande maioria da fragrância de tuberosa em perfumaria comercial é sintetizada em laboratório e não natural. Isto irá reduzir o fator de custo e permitir enfatizar certas características em detrimento de outras (digamos, enfatizando a cremosidade sobre a cânfora, ou o floral doce).
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Perfumes que contém tuberosa:
Fracas – Robert Piguet (referência máxima quanto ao uso da tuberosa em perfumes)
Jardins de Bagatelle – Guierlain
Chloe – Karl Lagerfeld
Amarige – Givenchy
Beauty – Calvin Klein
Tubereuse Criminelle – Serge Lutens
J’adore – Dior
Tubereuse Indiana – Creed
Today – Avon
Blonde – Versace
Madonna – Truth or Dare
Tuberosa do Egito – Colônia Phebo (tem o sabonete também)

Bebe Sheer, Bebe

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Da série: perfume pra mocinha dentro de um vidro extremamente “menininha” e bonito!
Chamativo, aposto que muitas, assim como eu, já compraram no escuro encantadas pelo apelo “Barbie” dele. Pois é, caí mais uma vez, comprei pelo vidro!  Me chicoteiem, eu mereço…
Mas o perfume… Bebe Sheer faz a linha mocinha, mademoiselle, miss, girlie ou qualquer outra denominação semelhante que você queira usar (para melhor entendimento, leia tais artigos esclarecedores e extremamente bem humorados:  http://www.perfumenapele.com/2013/01/o-guia-definitivo-dos-nomes-de-perfumes-parte-2/ e http://www.perfumenapele.com/2013/01/o-guia-definitivo-dos-nomes-de-perfumes-parte-3/ ). Fresquinho, levemente adocicado, frutadinho, rosinha.

O engraçado é que todas as propagandas que vi dele, embora apelassem para a pedofilia a imagem da Lolita, traziam uma conotação mais sexy, fetichista até. Aquela dualidade entre a menina e a mulher, o desabrochar da sensualidade e toda a coisa. Mas Bebe Sheer está longe de ser sensual. Na verdade achei o tal bem sem graça, o tipo de perfume que a gente usa pra ficar em casa ou para ir até o mercado. E nem é pra tentar seduzir o carinha do caixa ou o segurança, que fique claro!
Foi criado por Claudette Belnavis e Jean Jacques e apresentado ao público em 2010.
Notas de saída: notas cítricas, notas florais, maçã vermelha (ah…).
Notas de coração: jasmim, frésia, peônia (desbotadas…).
Notas de fundo: musk, sândalo, âmbar (desmaiados, coitados…).
Além de tudo, sua projeção e fixação são infelizes. É bem a flor da pele, intimista.
Ô raio de menina tímida, essa que mora dentro da garrafa-coração!
Jeannie, vem ensinar para ela como se faz e o que é morar em uma garrafa, vai…

Sun Moon Stars, Karl Lagerfeld

Não o possuo mais. Fiz uma troca com um colega também admirador de fragrâncias!
Sun, Moon, Stars (cujo nome parece título de música do Depeche Mode) é um floral oriental opulento da década de 90 que poderia muito bem representar a década de 80. Deu pra entender? Foi apresentado ao público em 1994 e criado por Sophia Grojsman para a marca de Karl Lagerfeld.
A embalagem é uma lindeza só! De azul profundo, lá estão presentes todos os elementos que o nomeiam: o sol, a lua e as estrelinhas!  Não sei se vejo tal frasco como uma alusão a estética hippie, se o vejo quase como um totem (afinal, tais símbolos estão presentes nas mais diversas representações religiosas, culturais e ritualísiticas. É o casamento sagrado, a representação do masculino e do feminino) ou apenas como uma bela obra da vidraçaria. Estou pensando ainda… mas que é lindo é! A tampa em dourado pálido pode se referir a qualquer um dos elementos de seu nome e isso o deixa ainda mais intrigante!
O perfume é de longa duração na pele é intoxicante! Intenso, suas notas são invasivas e agressivas, pode ferir olfatos sensíveis.
Engraçado como tais perfumes florais orientais opulentos e gritantes como Sun Moon Stars confundem meu olfato. As notas vêm tão apressadas, “aos borbotões” que fica difícil distingui-las. As notas frutais perduram um bom tempo na pele, gosto de dizer que é a fase “sun” do perfume. Sinto o abacaxi (sem acidez) e pêssegos bem maduros e sumarentos, como se tivessem sido pisoteados e estivessem ali, exalando todo seu aroma ao vento…
Notas de saída: frésia, bergamota, abacaxi, pêssego, lírio-d’água, rosas.
Notas de coração: cravo (a flor), flor-de-laranjeira, orquídea, raiz de íris, jasmim, heliotrópio, lírio-do-vale, narciso.
Notas de fundo: sândalo, âmbar, musk, baunilha, cedro.
Das flores afirmo que sinto o doce cremoso do heliotrópio, o “esverdeado” do narciso, o atalcado abafado da raiz de íris (confesso: li que o efeito de tal nota é esse, eu nunca senti o aroma da raiz de íris isolado, mas existe esse efeito no evoluir de tal perfume). E sim, Sun Moon Stars tem o cheiro inebriante e narcótico de alguma orquídea que já senti, mas não sei o nome… Pois é, costumo frequentar a exposição anual de orquídeas lá da Liberdade, famoso bairro “oriental” aqui de São Paulo. Plantas são minha outra paixão…
Sun Moon Stars é doce, é melífluo, é picante, é cheio de arestas e ao mesmo tempo é viciante e inebriante! Para marcar presença!
Enfim, se você é fã de perfumes marcantes, vá com tudo!